Tênis baixos e “pequenos” no skate sempre foram um lugar comum de muitos skatistas. Até mesmo nos anos 90, quando os tênis mais chunkzão foram tendência e fizeram a cabeça de skatistas no mundo todo, tinha algum ídolo ou outro que ia pro caminho do futebol e trazia a influência de tênis indoor da prática com bola para dentro do skate.
Historicamente, os dois grupos não necessariamente se misturaram. Enquanto jogadores de futebol não tinham interesse algum no skate, skatistas também pareciam não se importar com o esporte de chutar bolas, nem mesmo os brasileiros. Claro que sempre tinha alguém que ultrapassava essa linha, mas não era exatamente uma fusão. Nos anos 80, enquanto chuteiras da Rainha e Kichutes faziam a cabeça da molecada, skatistas andavam com seus Airwalks ou tênis bootlegs de norte-americanos, como os Alva, que só tinham aqui no Brasil.
Mas teve sim skatista que andou de Kichute, Bamba, Rainha e afins. Vale sempre lembrar que quando a gente fala de Brasil, a gente fala de falta de acesso à produtos internacionais e ao espírito faça-você-mesmo do skate brasileiro que, por exemplo, procurou no marfim uma opção mais barata ao maple canadense. Isso também se aplicou aos tênis, e skatistas andavam com qualquer coisa que tinham acesso nos pés e que fossem minimamente bons para que não atrapalhasse suas manobras futuras. Não necessariamente essa primeira onda de skatistas andando com chuteiras foi por um fator estético por aqui, mas sim por um fator financeiro e de acesso da época.
Nos anos 90, essa necessidade de tênis mais reforçados se aliou ao skate street, que era mais flipado e gastava muito mais os tênis. Mesmo com o Plano Collor quebrando o Brasil, skatistas estavam mais afim de tênis de skate do que de outros tênis de outras modalidades para a sua prática. Mas nem tudo isso fez com que parassem de usar alternativas baratas, como chuteiras da Penalty e Topper para andarem de skate. Marcas alternativas de esporte como a Le Coq Sportif ou até mesmo o maior uso de Nike e Adidas para o skate fizeram skatistas procurarem nessas marcas opções que fossem reforçadas o suficiente para não rasgarem na primeira sessão. Claro que tinham chuteiras de futsal nesse combo.
Enquanto os tênis de futebol tinham seu aspecto feito para a prática, os de skate se inspiraram em outros mundos. Os Vans tinham seu aspecto sapato de barco, por exemplo. Já os Emerica e éS da vida tinham um corpo muito mais robusto, feitos para andar de skate com proteção. Outros como os Airwalk e os Converse tinham inspiração no basquete e em botas que protegiam os tornozelos.
Um fato interessante de trazer essa pauta do skate com chuteiras pro Brasil é pensar que o skate brasileiro foi e é bastante praticado em quadrinhas de futsal pelo país todo. Chão liso, arquibancadas que viram bordas, traves que viram obstáculos, enfim, tudo isso faz da quadrinha um pico perfeito para o solo do street skate e, porque não, para um futebol no fim da sessão? Não necessariamente isso fez com que skatistas usassem chuteiras, mas é interessante pensar que os mundos já se colidiram na prática.
Mas mercadologicamente, essa fusão de estilos só foi se concretizar mesmo no fim do século XX, com personagens clássicos do skate mundial aderindo à essa moda. Acho que aqui a gente já pode começar a falar do Gino Iannucci, né?
NIKE
Um dos pioneiros nesse híbrido foi Gino Iannucci, com o NIKE SB FC, lançado nos anos 2000, que tinha por inspiração o futsal e suas chuteiras baixinhas de solado reto. O Gino já usava chuteiras da Nike para andar de skate, como nesse anúncio de 2002 da Chocolate, mas quando a marca realmente começou seu time, ele foi um dos primeiros chamados e o Nike SB Zoom FC ganhou vida numa colorway bem brasileira.
Esse foi o primeiro tênis que tinha realmente a proposta de ser um híbrido entre skate e futsal, permitindo sua prática em ambas as atividades e refletindo todo o poder de marcas multiesportivas no mundo do skate. Eles tinham negócios em ambos os esportes, por que não juntar tudo, doa a quem doer?
Fato é que nos anos 2000 os tênis de skate deram uma bela diminuída de tamanho e de proporção, buscando sim inspiração em outros menores, como os de futsal. Esse Zoom SB FC da Nike pode não ter sido o mais vendido na época ou o mais procurado, mas incentivou e influenciou um monte de outros tênis a se parecerem com ele e buscarem inspiração no futebol de quadra.
Bom para flipar, leve, pequeno, maior boardfeel, mesmo sem segurar tanto impacto. Seja qual for o motivo, os tênis “chuteirinha” vieram pra ficar no século XXI. Outros da Nike seguiram essa tendência como o Lunar Gato ou até mesmo os pro models do Nyjah Houston.
Essa propaganda a seguir, que trazia essa narrativa do skate sendo praticado em quadrinhas e usando obstáculos como a trave para manobrar, foi feita para o Nike SB Lunar Gato e era um abraço definitivo das duas práticas esportivas na Nike Brasileira:
ADIDAS
Outro grande player do mercado que viu na fusão do skate e futsal uma possibilidade foi a adidas, que em um dos seus pro models mais duradouros e famosos, o do Busenitz, traz aspectos da chuteira Copa Mundial em um tênis de skate que fez MUITO sucesso e é vendido até hoje. O primeiro model do Busenitz saiu em 2006 e essa versão mais “chuteirinha” está na linha de produtos da adidas ainda nos dias atuais.
O Busenitz já ganhou outras versões, já viu sua sola mudar, seu cabedal ficar mais largo, mas seu aspecto de chuteira sempre permaneceu. Ótimo para flipar, é o que todos dizem.
A adidas também lançou híbridos como o Copa Nationale e até as versões mais recentes da Predator estão bem “skatáveis”. Se liga nessa versão indoor, é para futsal ou skate? Não sabemos dizer.
O Samba da adidas, um dos tênis mais icônicos de todos os tempos e, que recentemente esteve em alta no mundo fashion, também foi inspirado no futebol e também viu versões de skate que faziam a gente pensar se dava pra jogar bola e flipar ao mesmo tempo.
OUTRAS MARCAS
Na verdade, esse texto foi feito mesmo porque a New Balance Numeric agora em maio de 2024 soltou um tênis que também dá pra jogar bola e andar de skate. Veja bem, se você chegou até aqui lendo tudo isso e pensando “pô mas qualquer tênis dá pra fazer os dois”, eu vou concordar com você, mas nosso intuito mesmo é pegar os modelos mais icônicos dessa junção de dois mundos e refletir sobre as mudanças de mercado que ocorrem com a influência de grandes players e suas noções de tendência.
Antes de entrar nessa seara do novo NB Numeric, vale lembrar que na década de 20 do século XXI (sim, essa que a gente vive), o futebol está MUITO em alta no mundo fashion. De camisas retrô, a alta do Samba da adidas em looks masculinos e femininos, a estética futebol ultrapassa os campos e percorre ruas e passarelas. É muito fácil você ver pessoas de qualquer gênero usando camisas icônicas e tênis baixinhos nas grandes cidades. Pensar nisso é pensar que o skate mais uma vez tem influências além de si mesmo e bebe de fontes que não são, necessariamente, as suas originais. Seja por estética e por seguir tendência ou seja por funcionalidade, essa nova leva de tênis-chuteiras estão presentes na nossa cultura mais uma vez.
Inclusive aqui no Trocando Manobras a gente já falou sobre skatistas usando camisas de futebol em videopartes. Assista aqui.
O tênis da New Balance é da silhueta Audazo, uma feita para esportes indoor com bola, mas que ganhou cores na vertente de skate. O interessante é o dizer na língua que traz a inspiração dos dois universos:
A New Balance tem outros tênis de skate inspirados em futebol, como o Epic TR e os pro models do Brandon Westage e do Tom Knox, que seguem a influência dos tênis baixinhos e feitos com solados que não escorregam.
Vale ressaltar que essa silhueta inspirada em futebol não-necessariamente é a mais favorita de skatistas. Apesar da gente saber que tem adeptos ferrenhos, tipo o Rodrigo TX, os tênis desses modelos podem apresentar problemas de amortecimento, de falta de material na parte do peito do pé para proteger e, até mesmo, de falta de uma cara de “tênis de skate” mesmo, que pega muita gente.
Gosto é que nem cu, né não?
Fato é que essa ideia de tênis inspirados em chuteiras não se extende somente a marcas multiesportivas como as citadas nesse texto, então a gente separou um monte de modelos que a gente acredita que dá pra flipar bastante e, no fim da sessão, jogar bola sem trocar de ferramenta (alguns forçando um pouquinho, vai):
