Um dos nomes mais ativos do skate brasileiro dos anos 2000 está ganhando palco de novo andando de skate sem dar uma remada
O skate brasileiro é cheio de pessoas hiper talentosas e não é de hoje. Desde que o skate é skate, tem brasileiro se destacando, reinventando passos, refazendo a história e sendo referência no que fazem.
O Diego Garcez é um nome que está na história do skate brasileiro há décadas, pelo menos nas duas últimas. Conhecido por um skate técnico, com pop alto e muita relação com a rua, o Diego traz um novo olhar sobre seu skate atual e tem viralizado na internet andando de skate parado.
Sim, enquanto tem uma galera remando que nem cavalo doido pra pegar impulso, o Diego mostra toda a técnica, dificuldade e plasticidade de manobras muito difíceis e consegue se reinventar mesmo depois de uma cota na indústria.
A gente trocou uma ideia com ele pra saber sobre esse projeto das manobras paradas, o DG Na Base, e como isso tem sido recebido nas internets por aí.
Salve Diego! Mano, vamos começar de hoje primeiro. Como que surgiu essa ideia de andar de skate parado, do DG Na Base?
Fala Filipe! Po, cara, então, essa é a primeira vez que eu vou compartilhar essa história de uma forma mais ampla (risos).
Eu ando de skate há bastante tempo, sei que tenho uma caminhada legal e sei que tenho uma base de skate legal também. Eu vinha percebendo que minha carreira estava um pouco estagnada, sabe? Eu precisava me renovar e estava tentando isso. Tipo, eu sabia que eu tinha um skate que eu poderia usar ele de alguma forma para me favorecer.
E aí eu pensei, pô, por que não, tipo, passar a base das manobras que eu sei, tá ligado? Eu sei várias manobras, por que não? Então pensei que essa seria uma forma também de me conectar com o mundo mais moderno, mais digital, de me atualizar divulgando meu skate, fazendo o que eu sei fazer de melhor, as manobras.
Aí beleza, pensei “vou passar a base das manobras”. Aí gravei um dia um vídeo de um Switch Flip parado, lembro até hoje que fui na quadrinha do lado de casa filmar, filmei e postei. No vídeo eu expliquei a manobra e postei no Facebook e no instagram. No Facebook deu bastante visualização, comparado ao que eu sempre postava. Sempre postei manobra, sempre fui dedicado, passava horas tentando a mesma manobra, mas uma manobra parada deu uma repercussão até maior, isso me surpeendeu. Achei bem legal.
Aí comecei a fazer isso regularmente, postar outros dias e comecei a ter mais visualizações, mais gente comentando, mais engajamento. No terceiro dia, o Facebook já passou minha conta pessoal para criador de conteúdo automaticamente, de tanta visualização que eu estava tendo. Então ali entende que era esse o caminho.
Isso até ajudou a eu conhecer ainda mais meu skate. Muita gente comenta do meu pop e eu não tinha essa dimensão, eu só andei de skate, sabe? Então eu vi que eu tinha um privilégio também, uma qualidade no meu skate que até então eu não tinha reconhecido isso em mim mesmo.
Aí comecei a colocar obstáculos para filmar na quadrinha, fui colando em outros picos e vendo que dava pra fazer mais coisas além de manobras de solo. Comecei a andar em manual parado, em bordas, em corrimão descendo, todas essas coisas. E eu tenho a mesma sensação de dar a manobra parada quando estou andando, sabe?
Andar parado me ajuda até a andar de skate remando, porque eu tenho que fazer mais força parado e, consequentemente, faço a mesma força depois andando e consigo ter mais pop. Então foi assim que começou a ideia!
Como tem sido a recepção da galera com seu rolê do skate parado? A gente conversou mais cedo e você comentou que tem gente que não flagrava antes, mas agora te segue por causa dessa parada.
Cara, tem uma galera que realmente não conhecia meu rolê e isso é da hora também! A gente tem várias plataformas hoje em dia e nem todas elas tem coisa legal, tá ligado? Tipo TikTok às vezes tem umas coisas nada a ver, umas coisas zoadas. Então se a gente pegar, a gente pode usar pro nosso lado também, sabe? Mostrar, por exemplo, mais sobre o que é o real skate. Então, e eu como eu tô hoje em dia pegando essa molecada nova, eu sempre tento também trazer ali no DG na base a minha história, sabe? Trazer referências das antigas, dos anos 90 ou falar de algum vídeo… Acho importante a molecada saber da onde a gente vem, saber que não é de hoje, né? Muitos moleques até falam, pô, né, como você não tem um patrocínio ainda, será que alguma marca vai te ajudar? Tem gente pensa que eu tô até começando hoje! (risos)
Mas eu acho da hora, sabe? Acho que isso é bom, porque eu posso, por exemplo, não só divulgar o meu skate, mas também trazer toda a galera que fazem parte do meu meio ali também junto. Um moleque que me conhece pelos vídeos, vai conhecer um outro amigo meu também porque está junto na sessão e assim vai. Eu acho super importante também divulgar não só a gente, mas quem corre com a gente e o meio que a gente vive.
Você sente que pra estar em evidência hoje você tem que se reinventar? Tipo só andar bem de skate é o suficiente? Ou tem que ter algo mais?
Meu, eu acho que hoje para você ter uma evidência ali mesmo como skatista, só andando é muito difícil, até porque são muitos skatistas. Se você entrar no Instagram agora, vai ter milhares de manobras postadas, entendeu? Então, por exemplo, um flip krooked hoje em dia, por mais que seja uma manobra muito dahora, tem muita gente fazendo isso, sabe? Então meio que você tem que achar um jeito de se destacar, sim.
Então você hoje em dia, com certeza, se você souber usar o seu talento com as ferramentas que a gente tem, souber transmitir isso pra galera de uma forma que não seja só a manobra, mas também a energia, o movimento, o que você tá vivendo, eu acho que a chance de você ter um reconhecimento é bem maior, não só das marcas de skate, mas também de outras empresas. Mas isso é mais trabalhoso, entende? Você tem que aliar seu skills com sua criatividade e, às vezes, passar horas fazendo isso pra dar certo.
Beleza, falamos de coisa boa. Mas chega uns hater também nos seus vídeos? Tem uma galera que não curte o que você tá fazendo com o DGNaBase? Se sim, como você lida com isso?
Ah, mano, sempre deve ter, com certeza, mas eu mesmo não sei, pra mim nunca falaram nada! (risos)
Na verdade, a recepção positiva tem sido muito maior. Eu fiquei muito feliz quando o Tiago Lemos, um cara que é referência pra mim, um dos maiores skatistas do mundo, chegou em mim e falou “po, estão da hora seus vídeos, assisto sempre, continua que tá muito naipe”. Outro que me deu um feedback legal também foi o JP Dantas, então essas coisas me animam muito.
É louco isso, porque às vezes a gente mesmo se trava com essas coisas. Eu fui no Drop (campeonato profissional da Drop Dead) e fiquei pensando “será que os caras vão achar zoado?” e nada a ver, tá ligado?
Eu fiquei muito tempo pensando nesse projeto, numa forma de me divulgar, então fiz por mim mesmo, me filmando, mostrando as manobras, dando dicas… E essa parada foi ganhando força e até skatistas de outras gerações, mais velhos, hoje estão seguindo o DG Na Base porque ali eu mostro toda a técnica e base das tricks, então eles sabem também que é skate de verdade! Quem anda de skate, sabe das dificuldades de dar as manobras. Hoje eu vejo meu skate de uma forma diferente, já corri campeonato, já fiz demo, já morei na gringa, então hoje quero ver meu skate como uma arte, mesmo, sabe? Eu posso usar meu skate como uma arte e estou me expressando através dele.
O skate tem infinitas possibilidades, mano.
Qual foi a trick que mais te desafiou de fazer parado? Tem muita diferença pra dar ela andando?
Foi o Varial Flip Indy parado. É uma manobra de vert, basicamente, então eu tinha que pular bem alto pra dar a manobra e, ao mesmo tempo, agachar no ar pra pegar o skate com a mão. Era uma movimento meio desproporcional, meio em dois tempos. Eu estava dando essa manobra de nollie, em movimento, mas quando fui tentar na base e parado, ela foi a mais difícil. Essa foi uma que quando acertei pensei “não acredito!” (risos).
Você tá no corre do skate há muitos anos, desde o começo dos anos 2000, pelo menos. Você acha que mudou muito o mercado de skate? Estou te perguntando isso porque parece que, por mais que existe um monte de campeonato, geral olhando pro skate, o mercado mesmo tá cada vez mais osso. Como você vê isso sendo um profissional do skate?
Mano, honestamente, está diferente, mas para eu mesmo nada mudou, sabe? Continua difícil igual (risos).
Sempre foi na raça, mas sempre tive boas oportunidades, bons patrocínios. Mas no Brasil você tem que saber que não vai ser sempre 100% perfeito. Você tem que agarrar suas oportunidades e fazer o melhor delas no momento que elas aparecem. Eu acho que tem que ter foco e boas conexões, essas duas coisas são fundamentais.
Uma coisa que eu noto que hoje é diferente, é que tem muita marca de fora querendo fazer ação com skate e isso é bom e ruim. Por exemplo, marca de tênis que chega e faz uma publicidade com uma crew, mas não necessariamente patrocina os caras por um tempo. Isso é ruim, porque não dá continuidade, mas ao mesmo tempo, os caras podem fazer outra publicidade com outra marca no dia seguinte e ir conseguindo fazer uma grana assim, manja?
Mas assim, o mundo está em crise, né, irmão? Eu já trabalhei de outras coisas e também não está doce. Então você tem que escolher o que você gosta e lutar por aquilo.
Eu estou feliz demais, sabe, mano? Tipo, para mim, eu sou um cara que estou muitos anos no corre do skate. Já fiz música, já fiz marca, já tentei de várias formas evoluir, como criar uma parada da hora, tá ligado? E hoje eu consegui chegar numa parada que eu gosto e o mais louco disso tudo que essa chave pra todas essas coisas era o que estava sempre comigo: o skate no meu pé.
