Jazz e skate: uma história de amor e improviso

O skate tem uma forte ligação com a música. Seja nos campeonatos onde skatistas andam ao som de músicas diversas, ou nas videopartes, em que cada pessoa tem sua própria trilha sonora (às vezes mais de uma), a gente sempre foi bombardeado de música andando de skate. 

Alguns estilos se sobressaem, como o rock, que até ganhou posteriormente um gênero próprio no skate, o skate-rock; o rap, que é aliado ao street skate; e, curiosamente, o jazz também é um outro estilo que pode se dizer que conversa muito com a atividade de manobrar solto pelas ruas mundo afora. 

É certo dizer que o desconforto do jazz vai de encontro ao livre perambular do skate de rua, famoso por ditar compassos diante das mais diversas variações e, muitas vezes, improvisar em cima delas. Um banco no meio do Vale do Anhangabaú, por exemplo, pode ser manobrado de muitas formas diferentes dependendo do skatistas, assim como a mesma melodia pode ser solada de infinitas maneiras, a depender do artistas que a encara. 

Curiosamente, a história dessa relação tem um marco muito grande nessa relação de arte-artista e do livre fluir por entre as telas, seja a rua no skate ou seja o canvas de qualquer pintor: Mark Gonzales. O Gonz, um dos skatistas mais influentes de todos os tempos, um dos pais do skate moderno e do ir e vir pelas cidades em cima do skate, ele é talvez um dos pioneiros nessa junção de ritmo e skate. 

Blind Video Days 1991. No começo dos anos 90, os vídeos estavam ainda começando a ser parecidos com o que conhecemos hoje, nessa coisa de separar skatistas por músicas e por suas manobras. A Blind Skateboards lança o Video Days, em 1991, e na parte do Mark Gonzales, vinha um jazz: Traneing In, do John Coltrane, lançada em 1958 e, com certeza, nunca pensada para acompanhar uma sessão de skate. Bom, talvez se o Coltrane tivesse conhecido o Gonz, isso seria diferente. 

Depois disso, a relação de jazz e skate se intensificou e muitos skatistas começaram a ouvir nas sessões e colocar em suas videopartes. Em 1994, a Stereo Skateboards lança o Visual Sound, inteiro com jazz. Músicas da Ululation e do Tommy Guerrero eram a trilha de Matt Rodriguez, Chris Pastras, Greg Hunt, Jason Lee, entre outros. A Stereo foi de fato uma marca muito ligada ao jazz em toda sua trajetória e esse vídeo mostra bem isso, lá no começo dos anos 90 e, diferente do Video Days, que tinha rock e outros gêneros na trilha, o A Visual Sound era só jazz do início ao fim. 

Em 1995, a Supreme declarava seu amor à cidade de Nova Iorque e ao jazz americano com o clássico “A Love Supreme”, que levava o nome das músicas de John Coltrane.

Depois desses marcos da relação skate-jazz, o skate da costa leste norte-americano ficou bastante influenciado por essas transições livres de manobras na rua e solos frenéticos e vários vídeos tiveram marcos da junção, como algumas partes da série Eastern Exposure, Continuum e até essa parte no meio do Welcome to Hell, da Toy Machine, em 1996 trazendo curiosamente uma música do Overton Barry Ensemble. 

Nas décadas seguintes, o skate viu uma enxurrada de novos estilos adentrando as videopartes e se tornando comuns nas sessões. O jazz, por sua vez, não foi mais a bola da vez, sendo no máximo parte de algum sample de rap dos gangstas dos anos 2000. O estilo volta a se tornar central quando, um pouco mais tarde nessa década, a galera da Magenta traz seu espírito artístico para dentro das produções audiovisuais e mescla perfeitamente com o jazz de improviso. 

Em 2011, o Hill Street Blues, o segundo vídeo da marca, trazia Weather Report, um dos grandes nomes do Jazz Fusion para dentro do contexto do skate. 

E se a gente traz pro contexto brasileiro, a gente também teve jazz nos vídeos de skate desde que a gente começou a filmar. Em 1988, no vídeo da H Prol, dá pra ouvir guitarras, sintetizadores e baterias eletrônicas do que era o Jazz Fusion na época. 

No Evolução da Espécie, a música do Milton Banana Trio aparece como trilha pra fechar o vídeo. Uma bossa nova, um jazz totalmente brasileiro, fechando um dos vídeos mais icônicos do Brasa. 

No Duotone, de 2008, um clássico aparece na sessão dos amigos: Take Five, do Dave Brubeck Quartet. 

Depois disso, outros vídeos trouxeram o jazz enquanto trilha, como algumas produções da Converse Latino Americana, tipo o L Train, do Brasil, ou o Perspectiva, da Argentina, que até trazia os caras tocando o som. 

Esses exemplos citados no texto são só alguns dos vários da junção de skate e jazz nas trilhas sonoras dos vídeos. O que é importante pensar é que tudo é contexto, então se a gente pega o skate brasileiro, sempre teve um lugar mais dentro do rap e do hardcore do que, por exemplo, o skate nova-iorquino, que tem mais junções com o jazz. Então não é de se espantar que as maiores produções audiovisuais do skate que trazem o estilo musical como trilha sonora venham da costa leste dos Estados Unidos. 

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