O falso bom mocismo do skate

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Você que anda de skate sabe que um fator “extra-campo” é fundamental para se construir ídolos no nosso mundinho: a humildade é quase sempre algo que é levado em consideração na hora de você falar quem é seu skatista favorito.

Essa noção de ídolo é algo que, historicamente, tem dividido opiniões e, hoje mais do que nunca, alguém não é considerado ídolo somente por fazer algo muito bem; parece que hoje há uma noção de que essa pessoa também tem que ser um ser humano ético. Mas essa construção do ídolo faz parte do  caminho que cada um de nós seguimos para formar um “eu-identitário”, ou seja, um conjunto de identificações externas que nos ajudam a criar uma personalidade própria. Portanto nós buscamos no outro características que nós queremos ter ou algo que queremos ser no futuro. Ninguém quer ser babaca, certo?

Para o filósofo Francis Bacon, porém, os ídolos “provocavam falsas noções, preconceitos e maus hábitos mentais”. Ainda para Bacon, sua noção de ídolos da tribo (perceba aqui uma palavra corriqueiramente usada por quem quer nos definir como skatistas em um grupo só), “os ídolos são aqueles que pensamos serem privilegiados pela natureza” e por esse motivo “o entendimento real da natureza era distorcido”.

Se analisarmos essa noção de ídolo de Francis Bacon de modo até grosseiro, podemos trazer para o nosso mundo quando botamos em altares imaginários (e, hoje em dia, até financeiros) skatistas que sabem mais manobras que a gente ou que tem mais estilo ou que são mais técnicos ou que tenham qualquer outra característica que seja superior (mesmo que imaginativamente) à nossa. Ninguém é ídolo sendo menos cabreiro do que quem o idolatra.

Porém, o fato curioso que podemos perceber nesse “culto aos melhores” é de que a noção de ser alguém bom em algo se estende fora dos palcos de atuação de cada estrela. Saindo um pouco do skate, a gente teve um exemplo prático disso recentemente no mundo do heavy metal quando o Phil Anselmo (Pantera, Scour, Down) fez uma saudação nazista em um show em que se apresentava. Isso resultou em uma repercussão totalmente negativa (obviamente) que culminou em um pedido de desculpas por parte do cantor e uma posteridade horrível ao fato. O que rolou na verdade foi que muita gente não conseguiu aí separar o homem de sua obra e é nesse ponto onde queremos chegar.

Até onde o ídolo é ídolo somente por suas obras? E quando podemos separar o homem de seu feitio sem esquecer que ambos estão conectados em diversas formas?

Nesse caso do Phil Anselmo, talvez, quem não conseguiu separar, vasculhou fatos e descobriu outras tretas de racismo, orgulho sulista norte-americano, bandeiras rednecks e uma caralhada de coisa que faziam o Pantera ser uma banda de ideologia bem duvidosa (homem), mas, inegavelmente para qualquer fã, uma banda que fazia boa música (obra).

Mas esse caso é embaçado, mano que faz saudação nazi não merece o respeito de ninguém. Vamos voltar ao skate. 

Saiu recentemente a parte do Vinicius Santos no vídeo da Blaze, o Ceremony. Os caras soltaram pela Thrasher e a parte em si (obra) é incrível. Tem corrimão descendo, muita técnica nas bordas, um estilo muito tranquilo e todas as manobras são executadas de forma perfeita. Então qual a crítica? O homem! Se a obra foi impecável, buscaram (e comentaram) o que falar sobre o Vinicinhos como pessoa. Não basta ir muito longe para ter gente criticando sua personalidade ou “a falta de sorrisos” e/ou a “falta de sentir que o cara se divertiu andando de skate”.

Assista à parte do Vinicinhos no Ceremony acima

Nesse gancho, a gente volta pro começo do texto e tenta repensar esse bom mocismo que existe no skate como algo fundamental para ser um skatista reconhecido e respeitado. Se o cara não chegar na pista e cumprimentar TODO MUNDO, ele logo é chamado de cuzão. Se o cara der uma manobra e não sair celebrando, ele logo é chamado de mala. Se recusar uma selfie então, esquece… Cuzão e mala em uma atitude só.

Até que ponto esse bom mocismo é necessário para que um skatista não caia na vala dos “problemáticos” no skate e seja logo esquecido porque não quis fazer uma social a mais? Para as marcas, por exemplo, além disso ser algo que conta MUITO na hora de contratar um skatista, é um fator que pode alavancar a carreira da pessoa rapidamente. O fato do(a) skatista ter um boa relação com seus fãs é algo que é procurado não só por marcas de skate, mas também por muitas que tentam morder uma fatia do nosso bolo.

Hoje o número de fãs é calculado pelo número de seguidores nas redes sociais e quanto mais o número de K (milhares) é visto ali na telinha do celular, mais a pessoa é reconhecida. Mito ou verdade? Isso depende. Mas o fato é que todo ídolo atual é um bom comunicador nas redes. A Leticia Bufoni não teria a quantidade de seguidores que tem se fosse só o skate; ela dá ao público o que o público quer ver (e sim, ela é MUITO bem assessorada nesse sentido). Seu lifestyle vira automaticamente desejo de consumo, que vira necessidade, que vira compartilhamento, que vira lucro pra quem a patrocina e que volta pra ela em uma grana muito boa. A conta fecha exatamente assim.

Mas a Leticia sofre sim os abusos desse bom mocismo quando chega em uma pista e não consegue andar porque tem milhares de pessoas querendo tirar uma foto com ela, por exemplo, ou quando quer ir somente andar de skate na rua e não consegue pelo fato de todo mundo conhecer aquele rosto de algum lugar e, por isso, querer tirar algum proveito, seja em um autógrafo ou em uma conversa mais longa.

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Fato é que se a Leticia mandasse um enorme FUCK YOU pra todo mundo que quisesse tirar foto com ela quando ela fosse andar de skate, ela não estaria onde está, não teria o status que tem, nem a grana, nem o reconhecimento. Seria ela mais feliz somente andando de skate? Não sabemos.

Já o Vinicinhos, que carrega por muitas vezes um status negativo com seu nome, conseguiu soltar a melhor parte brasileira do ano e mais uma vez conseguiu mostrar sua impecável obra na tábua com rodinhas sem precisar ficar parando nos picos para tirar selfie ou se preocupando em postar fotos que iriam lhe render passagens aéreas ou descontos na ida ao dentista.

Se você vai fechar o link ou não de alguém que não te agrada em personalidade mas que anda muito de skate, é escolha sua. Mas fato é que, em épocas de redes sociais mostrando sua vida 24h por dia, é praticamente impossível separar a realidade da ficção criada por alguns minutos. Talvez seu ídolo seja um babaca bem-assessorado ou uma pessoa gente fina com péssimo marketing pesoal. Difícil saber.

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Texto por Filipe Maia

Ilustrações por Raphael Galassi

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