Ode aos sapatos no skate mundial

Recentemente a Emerica lançou o Reserve, um pro model diferente do Kevin “Spanky” Long. Diferente porque não se trata de um tênis de skate, mas de um sapato bem parecido com os Dr. Martens. Em seu lançamento, a marca disse que esse produto “absorvia as diferentes culturas enquanto viajávamos e andávamos de skate” e por isso era uma “nova escolha em calçado”. Mas, apesar do estranhamento dos mais desatentos, essa não é a primeira vez que um sapato é visto no nosso mundo.

Até mesmo a visível inspiração fashion do Reserve já foi visto em vídeos de skate: em 1989, Matt Hensley começa sua parte no Hokus Pokus dando um fs lipslide reverse (do brasileiro “bordão de front reverse”) usando um dos modelos mais icônicos da britânica Dr. Martens, o 1461s. Apesar da parte ter só uma manobra nesse sapato, foi a primeira grande aparição de um Doc no skate mundial e ligou muitos pontos punks e skatísticos no street skate (a parte toca A Whole Lot Less, do Sub Society pra ajudar nisso).

 


Matt Hensley e seu Dr. Martens (fonte: Chris Wars)

 

Mas apesar desse fogo inicial, os sapatos foram mantidos de fora do skate por muito tempo, fosse pela sua não-funcionalidade ou pelas marcas não optarem por seus designs. Até mesmo nessa parte do Matt Hensley, o lipslide reverse foi a única usando um calçado alheio aos skatísticos. O reuso de sapatos veio só depois com pessoas mais ligadas ao mundo fashion do que ao mundo punk.

 

Nos anos 90, Pepe Martinez usou Timberlands em seus rolês. A bota de construção seria vista anos depois (tipo hoje em dia mesmo) nos instagrams dos moleques mais bizarros que tem a mania de usar tênis caros ou sapatos não convencionais para andar de skate e ostentar suas compras.

 

No meio dos anos 2000 um outro movimento trouxe à tona o uso de sapatos diferentes ao skate: a galera da I-Path, os rasta e todas as marcas ligadas a essa cultura foram responsáveis por tornar popular (mesmo que só dentro desse grupo) esse modelo aqui:

 

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O IPath Cat foi uma revisitação de botas de inverno e ficou popular na época em que foi lançado. Apesar do período ter sido de vários lançamentos diferentes e de reformulações nos formatos e designs dos tênis de skate, ainda era possível ver muita gente se inspirando no Matt Rodriguez e usando os Cats por aí. Mas ainda assim era mais parecido com um tênis de skate do que os sapatos que viriam a seguir.

 

Claro que a gente não pode esquecer que em muitos vídeos aparecem skatistas usando sapatos sociais nas esquetes que zoam com lifestyles diferentes dos nossos, mas por serem desconfortáveis ou por não conversarem com nosso rolê, os sapatos sempre foram itens desprezados na nossa cultura.

 

O icônico Dylan Rieder foi talvez o maior responsável por trazer à vida os “sapatos skatáveis”. Na real, o “efeito Dylan” foi tão gigante que tudo que ele fez foi copiado descaradamente por muitos skatistas ao redor do mundo: calças mostrando a meia, regatas brancas e, é claro, o uso de tênis que pareciam com sapatos. Quando Dylan estava na Gravis Footwear, eles lançaram seu pro model e era exatamente assim:

 

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Em entrevista para a Ripped Laces, o designer da Gravis na época do tênis do Dylan, Kelly Kikuta disse que ele “queria literalmente mudar o skate em termos de visual”. Segundo ele, Dylan disse que queria “mostrar para a molecada que não precisa ser um vagabundo andando de skate, você pode ter estilo, pode ter um pouco de senso fashion”. Então o pro model do Dylan era exatamente o que você não esperava e pegou todo mundo de surpresa na época.

 

Depois disso (eu disse que o efeito Dylan tinha sido foda), muitas marcas prestaram atenção em silhuetas diferentes das ultra resistentes e pesadas, passando a prestar mais atenção em sapatos sociais, sapatos de barcos, chillers e afins. Talvez o uso de slip-ons, tão cultuados hoje no mundo dos tênis de skate, tenha seu começo e seu valor nessa mudança de imaginário do skatista ao redor do mundo.

 

A Supra, por exemplo, apresentou seu primeiro tênis-sapato (NÃO CONFUNDA COM SAPATÊNIS) com o sétimo pro model do Jim Greco. O Supra Greco (nome criativo), tinha sua influência na mudança drástica no estilo do skatista que levava seu nome, já que o Jim Greco mudara de punk-glam-tatuadoatéocu para um visual mais OndeOsFracosNãoTemVez-calçadebrechó, apagando até as tatuagens mais visíveis. Se ele se veste igual um personagem de Cormac Mccarthy, claro que seu tênis seria nessa pegada.

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Existem também algumas outras marcas que vieram do skate e fazem sapatos. Em Nova Iorque, o designer Oliver Clark aproximou o mundo do skate de sua marca e teve muitos anos como carro-chefe a sua Sk8 Boot, que era uma “bota do chico bento skatável”, de camurça. Apesar de não ter feito tanto sucesso assim na comunidade skatística americana, foi um bom visual diferente passando na nossa timeline. Teve também a Human Recreational Service (HRS), marca só de sapatos dos skatistas Bryan Herman e Erik Ellington. A marca é focada em fashion e não parece ter vingado muito no dia a dia dos skatistas, já que seus sapatos são caros (tudo que vai pro lado da moda fica caro pacas).

 

Aqui no Brasil, poucas foram as tentativas de marcas de skate abraçarem essa ideia do sapato. A Öus fez um modelo chamado Tenente Callegari 2508 Imperial, mas foi uma edição limitada. Também vale lembrar que o Pro Model do Filipe Ortiz tem cortes bem parecidos com sapatos, apesar de ser um tênis de skate.

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O Tenente “sapato”

Mas na maioria das vezes, quando buscam inspiração de fora do skate, as marcas nacionais parecem preferir olhar pro basquete ou para o running, por exemplo, buscando mais o conforto do que o estilo. Mas isso não é uma característica brasileira, já que as marcas de skate do mundo todo não tentam ousar tanto, preferindo os modelos mais convencionais (toda marca tem uma cópia do Vans Era, que é inspirado em sapatos de barco) e os bate-caixa de camurça que todo skatista ama.

Por falar em Vans, a própria marca dos Van Doren já tentou fazer seus sapatos, sejam eles em edições especiais com artistas e estilistas, sapatos de boliche e até mesmo sapatos de palhaço, mas nenhum deles chegou a ver a lixa, pelo menos não em vídeos, nem mesmo dos patrocinados da marca.

 

Mas apesar do Reserve da Emerica ter sido lançado há pouco tempo e de ter algumas imagens do Spanky andando com o sapato, ele não foi feito só pra andar de skate ou até não foi feito pra andar de skate mesmo. Essa é mais uma tentativa de uma marca ousar em seus “modelos pra descanso”, mas que, igual aconteceu com os Dr. Martens de Matt Hensley, vão ficar só no imaginário dos skatistas mais nerds e nos rolês alheios aos de skate das pessoas que se importam um pouquinho mais com esse lado fashion da coisa.

 

Ps: o Reserve da Emerica não está disponível no Brasil, a não ser que você faça aquela viagem internacional com o dólar a 4 reais e traga o seu na mala. 

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