Skate (não necessariamente) é tudo

Existe uma grande necessidade ideológica de que o skate precisa ser tudo. O skate precisa ser tudo pra momentos em que não se tem nada. O skate precisa ser terapêutico a ponto de te tirar da realidade que te sufoca. 

Mas sempre que penso nessa necessidade do todo, penso que se perdem partes essencialmente divertidas do que se possa ser com algo que, literalmente, é só um brinquedo. Quando põe-se o todo em cima da tábua com rodinhas, exige-se que esse objeto mágico faça as vezes de rivotril de cabeças cansadas de serem e de existirem. 

E aí vem a frustração. 

Porque, na verdade, andar de skate é só uma parte do nosso ser (talvez a maior delas) mas que não exclui e, não necessariamente, distingue-se de outras partes nossas tão importantes. Somos skatistas em todos os momentos, isso é verdade, mas, acima de tudo, somos humanos que tem vícios e virtudes, momentos bons e ruins, influenciados da mesma forma que outros grupos sociais, mesmo a gente achando que somos diferentes ou, ignorantemente, melhores que os outros. 

E nesse pensamento de que o skate é tudo, nos sobra a cruel analogia de sermos o protagonista desse todo, exprimindo através de cada pulo uma sensação de, essencialmente, alegria e prazer por estar vivo. 

O que nem sempre acontece. 

É comum termos dias ruins em cima do skate também, principalmente quando um objetivo não é alcançado ou quando algo dá errado, enfim, são muitas as variáveis. Se o skate é um reflexo do nosso ser, as partes ruins também estão presentes naquele ato simples de sair para remar ao ar livre. 

– obrigado por mudar minha vida
– eu sou literalmente um brinquedo

Não se engane. 

O skate não necessariamente vai te fazer esquecer dos problemas que te assombram e nem vai ser o seu terapeuta mais ideal todos os dias da semana. Carl Jung disse uma frase que gosto de analisar na situação do skate também: “O que negas, te subordina. O que aceitas, te transforma”. E então por que negamos o fato de que no skate não precisa ter problemas e por que não aceitamos esse mesmo fato de forma com que possamos diminuir as expectativas dos atos simples da vida?

Se o skate é uma forma de diminuir o stress ou aliviar tensões do mundo externo a ele (e na verdade essa separação só existe na nossa cabeça), aceitar que nem sempre o skate vai ser o seu melhor amigo também é uma forma de nos transformar enquanto pessoas e fazer um afago no ego que precisa tanto disso. 

Gosto de analisar também o quanto esse pensamento nos faz sermos incômodos sociais, distantes do respeito alheio que nos é tanto, de novo, ideologicamente, colocado como seres ambulantes e presentes no bioma urbano. Porque, por muitas vezes, achamos que o skate merece mais o espaço de convívio ou que somos mais importantes localmente do que outros seres que habitam aquele mesmo espaço. 

O que, convenhamos, são falácias que nós mesmos criamos para excluir o peso que nos foi dado histórica e socialmente nas grandes metrópoles. 

O skatista é tão importante quanto o pedestre e tão importante quanto quem não aceita o skate naquela forma de convívio. Mas essa nossa paixão nos faz acreditar o contrário e nos faz achar que merecemos mais e que, consequentemente, o outro vai entender da mesma forma que nós. 

“E se não entender, vai tomar no cu”, né? Mas por que a pessoa precisa entender o seu todo quando ela não teve a mesma experiência que você? Por que precisa existir a raiva enrustida, travestida de diálogo? Por que precisa haver a diferenciação de personas quando estamos em cima do skate?

Todas essas reflexões não são necessariamente pensamentos para serem concordados, mas tome isso como um diálogo, uma reflexão de fato, mesmo que redundante. Se diminuirmos a expectativa que temos com o skate em ser nosso salvador ou a solução dos nosso problemas, não teríamos mais diversão e mais controle das nossas razões nas sessões de skate? Não teríamos mais respeito ao próximo e mais entendimento do convívio social?

O skate pode ser tudo e pode ter te dado uma vida muito legal, mas ele não pode ser o todo que vai te colocar em pedestais imaginários perante a um coletivo que é plural e precisa do seu entendimento e do seu respeito tanto quanto o skate precisa. 

Entender que o skate é somente uma parte da sua terapia ou um grande aliado, mas não o único, na sua batalha diária pelo bem da sua saúde mental, é abaixar as expectativas em cima dele e ser muito mais feliz nos momentos simples andando de skate.

Se você está passando por momentos difíceis ou acha que precisa de alguma ajuda psicológica, procure um terapeuta. Existem programas que oferecem esse serviço de forma gratuita. O skate é uma ótima forma de abstração, sim, mas não exclua a possibilidade de trabalhar sua saúde com um profissional.

O Mapa Saúde Mental é um desses programas de atendimentos gratuitos. Saiba mais no site https://mapasaudemental.com.br/

Conheça também o @psicologia_radical e converse com o psicólogo Alberto Tobé para saber mais sobre a relação entre skate e psicologia.

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