Os brasileiros estão começando a entender o recado

07/09/2013

Aviso prévio: esta é uma tradução do texto que fiz anteriormente. Algumas marcas citadas foram procuradas antes do término deste artigo, mas nenhuma respondeu até hoje. Este é um panorama do que está acontecendo atualmente no mercado nacional, feito por mim e tem as minhas opiniões. Leia e entenda.

Vou começar este texto historicamente. Brasil, anos 80: quando Tony Hawk e Lance Moutain vieram para cá, junto com as visitas constantes de Hosoi, eles encontraram um país de marcas “bootleg” e cópias estranhas de peças que nem existiam, como um pro model brasileiro de tênis do Hawk, sendo que ele nem tinha isso lá nos EUA. Algumas companhias eram comandadas por skatistas e isso sempre sempre foi um fato no Brasil, não houve muitas companhias que não eram chefiadas por skatistas. Depois, é claro, com a popularização do esporte, algumas marcas fora do skate começaram a criar seus próprios times, como a Coca-Cola e Pepsi que patrocinaram alguns jovens talentos como Lincoln Ueda e Sandro Dias. Mas, na maioria, skateboarding sempre foi comandado por skatistas aqui no Brasil.

Lincoln Ueda pois o Brasil no mapa do skate quando ficou em quarto no Munster Monster Mastership, em 1989 na Alemanha. Ele tinha apenas 15 anos. Depois, veio o Bob e abriu as portas para o Brasil e para os brasileiros nos EUA. Mais tarde, é claro, Rodrigo TX consolidou as fortes raízes streeteiras do Brasil no mundo, mostrando que tínhamos força no street também. Não podemos esquecer aqueles que vieram nessa época como Andre Genovesi, Fabrizio Santos, Ricardo de Carvalho e Roger Mancha, que foi um integrante do time da Citystars.

Enquanto isso, o Brasil estava vivendo uma era estranha de companhias esquisitas de skate, um “boom” de revistas de skate, sobrevivendo com pouco dinheiro e o número crescente de praticantes de street. Era os anos 90, até o início dos anos 2000. Aqui, sempre tivemos um jeito bizarro de se fazer materiais de skate, como usar madeiras diferentes do maple, como o marfim ou fazer trucks e rodas de materiais mais baratos. E as lixas nacionais? São uma merda e já vi muito brasileiro usando lixas de areia, compradas em casas de construção. O skate ficava mais pesado e não tão mais barato quanto você imagina.

A mentalidade do skate no Brasil era gangsta, do gueto. DGK influenciou MUITO aqui. Sua identidade era algo que o brasileiro sempre havia carregado, mas sem ter um nome, uma marca que representasse a verdadeira rua. O vídeo “The Kayo Corp. Video” mudou o jogo, a parte dos caras da DGK fez com que todos aqui começassem a usar bonés New Era, calças mais largas e andar em bordas, manual, fazer manobras técnicas. Isso já existia desde os anos 90, mas a DGK foi responsável por dar um nome aos que a seguiam: “a gangueiragem”. Claro que não podemos esquecer que o skate brasileiro sempre teve uma dificuldade a mais porque nossos picos não são fáceis de andar, muito menos perfeitos. Imagine uma escada, mas no Brasil, você a encontraria com um chão ruim, uma área pequena para a volta, ou alguma dificuldade a mais, aqui sempre foi assim. Principalmente no começo do século XXI, os picos eram bem ruins.

Algumas companhias eram comandadas por skatistas, outras apenas queriam seguir os bons ventos. A gente sempre teve muitas “surfshops” patrocinando os garotos e até mesmo outras maiores como a Nescau tentando montar seus times. Felizmente, no meu ponto de vista, essas empresas apenas utilizaram de uma moda, tentaram, falharam e deixaram o skate de lado. Sim, essas companhias puseram dinheiro no skate mas não sabiam como atuar, fazendo contratos bizarros e colocando os skatistas em situações estranhas em demos e apresentações. Eu lembro quando eu era pequeno, estava na quarta ou quinta série, o time da Nescau veio fazer uma apresentação na minha escola. Eu estava empolgado, já andava de skate então sabia que ia ver algumas manobras legais, mas as outras crianças não estavam entendendo muito bem o que estava acontecendo, só queriam tomar o achocolatado no final daquilo tudo. Mas, o mais bizarro disso, era uma espécie de uniforme que o time da Nescau tinha que usar, tipo uma camiseta vermelha e um shorts amarelo, que são as cores da marca. Todo mundo com a mesma roupa.

Pois é, essa foi uma fase estranha para o skate brasileiro, mas tudo começou a mudar com a Internet e, principalmente (sim, isso é um fato) com a chegada da Nike SB e da Adidas Skateboarding no Brasil. Além deles colocarem MUITO dinheiro no skate, Nike e Adidas recrutaram os melhores skatistas para seus times. Os melhores. Nike, quando chegou, chamou o Fabio Cristiano, Rodrigo Petersen, Cezar Gordo e tinha o Rafael Finha, junto com os irmãos Pastel. Adidas colocou Klaus Bohms no time internacional (muito merecidamente!) e chamou amadores talentosos como Marcelo Garcia e Akira Shiroma.

No começo os skatistas brasileiros influenciavam muito em como essas marcas iriam trabalhar nas nossas terras, o que fez os skatistas terem espaço livre, a vontade para fazerem o que quisessem. Isso foi algo que nem toda marca tinha, nem todo mundo tinha trabalhado assim ainda e ver uma companhia gigante fazendo isso, com certeza deu uma mudança no pensamento de todos.

É importante mencionar a Crail e a Supa Dist. Quando falamos de marcas verdadeiramente brasileiras. Crail está na ativa desde 1990, sempre dando um motivo a mais para os seus skatistas andarem para eles: são verdadeiros. Fazem pro models e tem uma relação direta com os skatistas. Supa é responsável pela Crail, Moog e Agace. Ah, a Agace. Essa marca fez uma ENORME diferença no skate brasileiro em termos de shape: foram os primeiros a fazer um shape com 100% de maple canadense. Comprar shapes gringos não era mais necessário. Supa fez a transição de materiais ruins para os bons. É necessário dizer que muitos falam merda nos shapes da Agacê, dizem que é madeira chinesa e qualidade inferior, mas a Supa garante 100% de maple canadense e seus skatistas que são patrocinados por ela aprovam a madeira. Mil desculpas para quem não concorda, mas eu acredito cegamente quando o Fabio Cristiano diz que algo é legal!

Future Skateboards começou a fazer maple também. O time dos caras é bem legal e tem ideias muito originais, mas quando fizeram uma promoção via facebook para os garotos, na qual o ganhador levava para casa um shape e uma estátua (que representava a marca), eles deram um shape de marfim. Po, que jeito errado de se garantir um cliente! Vocês fazem maple mas dão um marfim em promoção? O que era, fim de estoque? Não sei, posso ser exigente demais, mas isso foi errado.

Necessário comentar também a volta da Son Skateboards. A companhia começou em 1995 mas, como muitas outras, teve problemas e teve que parar no começo dos anos 2000. Voltou a vida em 2012 com um time muito bom, grandes nomes na crew, fazendo shapes de maple (é ridículo para quem é de fora do Brasil, mas para nós é uma coisa importantíssima) e a marca é comandada por skatistas. Os decks são da mesma qualidade que os Plan B, então são bons mesmo!

Outras companhias importantes de skate, comandadas por skatistas são: Ous, que revolucionou o “insole” e a sola dos tênis brasileiros; a Vibe Shoes, que tem um time muito bom e acabou de lançar um vídeo chamado Cityzen, que mostrou o espaço livre que os skatistas e toda crew tem para transformarem suas ideias em ação; Liga Trucks, comandada por skatistas, bom time e novos materiais para os trucks; HAHAHA, que é uma companhia de roupa feita por skatistas e tem um approach diferente no mercado, com muito bom gosto e boas pessoas por trás; Paviment Supply Co., uma marca de roupas, feita por skatistas para skatistas, com ótimos materiais em suas peças; Metallum, uma marca de truck comandada por Andre Hiena, uma lenda no street brasileiro; Drop Dead, que é comandada por skatistas e está no business há mais de 20 anos, além de ter sua própria pista, o que ajudou os garotos evoluírem MUITO em Curitiba; Kronik Skateboards, que fazem shapes de fiberglass; Freeday, uma marca que fez muito barulho na primeira década dos anos 2000 no Brasil; Hood Griptape, comandada por skatistas e que traz material de qualidade, equiparando-se a lixas gringas; e muitas skateshops como a Matriz, Retta e SecretSpot.

Entenda, os brasileiros estão começando a entender tudo, não apenas tendo marcas, mas dando total espaço para os skatistas, fazendo bons materiais, madeiras boas, rodas e trucks podendo ser comparados a gringos. Isso é muito importante. Isso é um grande negócio. Brasileiros não precisam mais comprar peças dos Estados Unidos para ter um skate bom. Agora, temos a oportunidade de escolher entre dar apoio ao mercado nacional ou ao de fora. É escolha do skatista brasileiro agora na hora de comprar suas peças e a quem dar suporte.

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