SKATE NO MUSEU – Paloma Gebellini

19/03/2014

Dando um pontapé inicial na série de entrevistas que ajudaram a formar o livro “Skate no Museu – A independência do carrinho em um local histórico”, essa é a entrevista de uma das meninas locais do Museu no fim dos anos 90, começo dos anos 2000. A Paloma foi uma peça fundamental para entender uma parte da história do skate no Parque da Independência. Confira a entrevista realizada em setembro de 2013 para o livro:

Paloma Gebelini, 25 anos

Quando você começou a andar de skate e onde?

Eu tinha 13 anos e foi aqui no Museu do Ipiranga.

Você sempre foi do Ipiranga?

Sim, nasci aqui. Nasci no Hospital Ipiranga, que é do lado do Museu.

E quando você começou a andar, quem andava de skate junto de você?

Quando eu comecei, era o Tadeu, o Alemão da ladeira, o Carlinhos… tinha muita gente que hoje em dia nem anda mais de skate. A gente andava de skate onde hoje é permitido, lá na “bola”, no escorregador e às vezes andávamos lá embaixo no Monumento. Teve uma época em que estava liberado, depois proibiram, aí liberavam de volta… era sempre assim. Mas, pelo fato de eu ser menina e andar de skate com outras meninas não pegava nada! A gente andava a tarde inteira sem ninguém encher o saco, era só um menino chegar que os guardinhas mandavam a gente sair de lá.

Nessa época tinham duas turmas: os certinhos e os desandados. Os desandados eram os caras mais punk, fumavam maconha e andavam de skate, ficavam bebendo, essas coisas. Os certinhos, que era a turma que eu fazia parte, era o pessoal que ia mais para andar de skate e se divertir.

No Museu, não lembro de uma época em que o Monumento estava cem por cento liberado. A gente sempre tentava andar, independentemente de estar proibido, a gente tentava andar lá. Se desse certo a gente ficava lá, senão a gente subia e ia andar ali na “bola”.

Como que era a relação entre os skatistas no Museu na época em que você começou a andar?

Era muito legal, não tinha treta do pessoal do street com o pessoal do long. Todo mudo andava de skate junto. Todo mundo se respeitava. Era muito menos gente. O número de pessoas andando de skate, tanto no long quanto no street era muito menor, então todo mundo se conhecia e se respeitava. Depois que arrumaram a ladeira, colocaram um asfalto novo, começou a vir muita gente de fora e aí a coisa desandou, não existe mais essa união. Antes a ladeira era muito ruim, muito difícil andar nela, então eram poucos os que se arriscavam ali. Não tinha essa rivalidade que existe hoje, a galera era muito legal, era skate na veia, mesmo!

Lembro até de uma época em que tinha uma galera que jogava futebol ali na “bola”, bem onde a gente andava de skate. Isso começou a gerar muita briga, aí combinamos de quem chegasse primeiro ficava com o pico. Até o pessoal do long ajudava a gente nessa! Aí, como eu e a Camila não fazíamos nada, tínhamos 13, 14 anos na época, a gente chegava cedo e ficava guardando o espaço para o skate. Só que o pessoal do futebol não respeitava a gente por sermos meninas e mais novas! Aí isso sempre dava briga, os skatistas sempre discutiam com o pessoal do futebol pelo espaço.

Quem são as meninas que andavam com você?

A Camila, a Bruna, que também eram locais do Museu na mesma época que eu.

Que ano foi isso?

2002. A gente tinha 13, 14 anos.

E como é ser uma menina em um esporte em que os praticantes são na sua maioria homens?

É difícil! (risos) Tinha muito preconceito, entre a galera do skate mesmo. Eles falavam pra gente que menina não tinha que andar de skate. Muitas vezes ouvíamos dos caras: “ah, vocês são lindas, mas a gente tem que ensinar vocês a se vestirem direito”. Sério mesmo!

E o assédio?

Raramente tinha assédio. Era mais preconceito. Os caras do skate não gostavam de meninas que andavam de skate. Acho que porque achavam a gente muito maloqueiras…

E o pessoal do Museu? Como era a relação com eles?

Com os locais, nunca houve preconceito porque a gente começou a andar justamente por causa dele, incentivadas pelo Tadeu e pelo Célio.

Quais as dificuldades que uma menina enfrenta por ser skatista?

A maior dificuldade era o preconceito. Eu corria campeonatos, desde de 2002, na Skate House, em São Caetano, Parque São Rafael, Mauá, quando a pista de lá ainda era de madeira! Em Santo Andre tinha um circuito para meninas… Não cheguei a ter patrocínio, para meninas era muito difícil. De cada 20 que andavam, três no máximo tinham algum tipo de apoio e o resto se matava para andar. Era muito difícil e o preconceito era enorme, por mais que andasse bem!

Você lembra de outras meninas que andaram de skate antes de vocês no Museu?

Na época, ou até um pouco antes, a Alessandra Vieira andou lá, mas só lembro dela. Quando a gente andava não tinha menina, era eu e a Camila e às vezes a Alessandra. Depois a Bruna começou a andar também, uma loira chamada Mariah que morava no Cambuci. Depois da nossa geração, a única local que eu me lembro é a Larissa que representou mesmo, ia andar de skate direto, as outras meninas só iam uma vez e sumiam.

Como está o skate para você hoje?

Eu ainda ando, pouco, mas ando. Mas em um panorama geral, o skate está muito melhor hoje. O preconceito está bem menor. Hoje, para todo mundo andar, tanto menino quanto menina, está bem mais fácil porque os pais incentivam, levam para os picos, compram peças. O skate tem muito menos preconceito hoje em dia.

Como era o skate na época em que você começou?

Tem muita diferença com hoje em dia! O pessoal de antes era mais raça, mais rua! A gente não tinha condições de ter as peças de skate e nossos pais não davam apoio, então tínhamos que fazer uma correria maior. Não tinha peça, não tinha dinheiro para os rolês, a gente passava por baixo da catraca do ônibus direto para ir andar de skate.

Hoje em dia está muito mais fácil, o pessoa hoje ganha skate dos pais, ganha tênis, estão sempre com o skate bom. A gente era mais rua!

Hoje eu não vejo mais ninguém remendando o tênis com silver-tape e cola quente! Na nossa época isso era a coisa mais normal do mundo. Parece que ser skatista era uma coisa de sangue! Hoje parece que está tudo mais fácil. Naquela época tinha mais valor o skate, era mais amizade, era muito legal sair com o skate e ficar na rua com os amigos o dia inteiro.

Antigamente a gente acordava 7 horas da manhã, ia para campeonato, saía de lá e ia para outro rolê, andar mais de skate, não saíamos da rua. A gente passava por baixo do ônibus em galera, 10 pessoas passando por baixo da catraca (risos). A gente não perdia tempo, ficava na rua direto! Eu acho que o skate faz você dar valor para as coisas!

Era mais difícil, a gente dava mais valor. Andava porque gostava. Não era só o skate, era o fato de você estar com seus amigos, sabe? O que unia todo mundo era o skate e isso que era bom!

Você acha que a Internet influenciou essas mudanças do skate?

Sem dúvidas. Antigamente o acesso à internet não era tão abrangente quanto hoje. As pessoas desconheciam e discriminavam muito o skate, achavam que quem praticava era só marginal. Hoje, com a Internet, o skate está sendo visto mais como um esporte.

O que é o skate para você?

É um esporte. Algo que me dá prazer em fazer.

O que é o Museu para você?

É minha casa, meu quintal! Não mudo desse bairro por nada!

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