Fui assistir ao Cidade Cinza e pensei em…

16/06/2014

Skate. Eu fui com a minha namorada ver, totalmente de graça, o documentário Cidade Cinza, dirigido por Marcelo Mesquita e Guilherme Valiengo, no Museu da Imagem e Som, em São Paulo. É importante frisar que foi de graça, porque muitos reclamam que a cidade não apresenta nada de cultura gratuita. Esse foi um belíssimo exemplo de que quem procura, acha e que a cidade apresenta, sim, boas atrações culturais.

Para quem nunca viu o Cidade Cinza, o vídeo conta um pouco da história do grafite em São Paulo, focando em um grupo de grafiteiros que fizeram o painel da Avenida 23 de Maio. Dentre eles, os renomados internacionalmente Os Gêmeos e outros clássicos mundiais como Nina e o, absurdamente talentoso, Nunca.

O grafite, como cultura urbana, vem sofrendo uma transição monstruosa, de marginal à arte, adentrando galerias e não sofrendo com leis de cidades limpas. O grafite está tendo seu papel como “o colorido no cinza da cidade”, agradando a políticos, babás, motoboys, mães, pais, enfim, todo tipo de gente. Isso não era assim e é engraçado ver como as coisas mudaram, inclusive a mentalidade daqueles que fazem parte dessa cultura.

Tá, mas por que eu pensei em skate? Simples, porque o skate também sofre essa desmarginalização, passando de garotos odiados a garotos-atletas. Os mais odiados da cidade agora estão se tornando atletas e artistas.

A gente, do skate, não tem painéis para pintar nem galerias a ir, mas temos nossos exemplos também. Os gigantescos campeonatos e os grandes patrocinadores não-do-skate estão fazendo do nosso lifestyle um esporte, um emprego, algo que dá pra viver bem.

O grafiteiro antes era visto como um filho da puta, um cara que transgredia os bons costumes e a moral. O skatista também. Quem não curtia ver um moleque flipando na sua frente, flipava mentalmente com um cara pintando sua parede, com certeza.

O painel da 23 de Maio foi patrocinado. Ok, antes havia sido pintado pela prefeitura que, erroneamente, cobriu uma das maiores expressões artísticas da cidade. Mas o painel refeito foi pago pela Associação Comercial e isso é inegável. Tiveram o apoio da cidade e do governo, o que nunca aconteceu. Muitos ficaram putos porque ia de contrário ao que o grafite se propõe.

Até mesmo os próprios grafiteiros do filme se viram em um conflito mental. Entrar nas galerias, ganhar uma puta grana, pintar castelos e museus ia de encontro até mesmo com que eles gostavam. No filme era engraçado perceber que de tempos em tempos os caras que estavam fazendo um painel saíam e faziam bombs pela cidade. Tipo no vandal mesmo, criminal shit. É como se eles mesmo precisassem disso, tipo um alívio da alma. Que nem skatistas que vão andar nos campeonatos multimilionários, mas curtem mesmo andar pela cidade a vontade.

Os dois grupos sociais se assemelham bastante, até mesmo nas mudanças que estão ocorrendo com eles. Há aqueles que mantém a tradição vandal e transgressora de cada grupo e aqueles que “se venderam” e fazem aquilo que dá grana e visibilidade. Nos dois grupos, de skatistas e de grafiteiros, a mentalidade ainda é daquela de tentar ser “rua” em qualquer ocasião, o que é muito bom, porque mesmo fazendo as coisas que lhes dão dinheiro, ainda tentam manter os primórdios de cada coisa. Mas, claramente, há um conflito interno dentro de cada um que passou para o outro lado.

O mais doido, porém, é a reação do público a cada mudança. Parece que para a massa, tudo bem você passar a fazer coisas que dão dinheiro, mesmo vendendo a alma do bagulho. Afinal, você está ganhando dinheiro, mesmo, né? Interessante foi ver a reação, no fim do filme, quando mostrou onde cada um dos grafiteiros se encontra hoje na vida, um deles (cujo nome me escapa), deixou de lado o grafite para ir atrás de estudar o esoterismo. Esse fato causou risos na plateia, que não riu quando viu que os outros membros do grupo estavam vivendo pintando por encomenda. Então, quer dizer, que é engraçado ir atrás de se conhecer e o mais comum é fazer coisas por dinheiro? Bom, então talvez por exatamente esse pensamento que esse mano largou o grafite e porque muitos grafiteiros e skatistas largam tudo e/ou vão viver no underground. Tá tudo ficando estético, plástico, bonito pra todo mundo. Mas ter alma, que é bom…

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