Skate para não skatistas: uma análise pré-olímpica

Faltam dois anos para as Olimpíadas do Japão de 2020 e, como você está cansado de saber, o skate estará lá presente como uma nova modalidade, junto do surf, baseball, entre outras.  Mas mal começou 2018 e já tivemos alguns acontecimentos que dão o tom dos próximos eventos que vão rolar até os jogos olímpicos.

Bob Burnquist, junto do banco Santander, inaugurou uma pista de skate no antigo prédio do Banespa, mas os ingressos custam 50 reais para andar uma hora, usando capacete. Também nessa semana, os skatistas (que provavelmente serão os nomes cotados para as olimpíadas) Pedro Barros e Letícia Bufoni assinaram um patrocínio com a operadora de telefonia Oi. Essa mesma Oi que no evento oiparkjam premiou os ganhadores das modalidades feminina e masculina com uma diferença de 12 (sim, doze) mil reais a mais para o Pedro Barros, que levou a categoria dos homens. Se é assim no campeonato, como deve ser no salário dos novos contratados? Nesse caso do campeonato, independente de serem categorias diferentes ou de qualquer desculpa acerca dessa disparidade, faltou sensibilidade dos patrocinadores do evento ao tratar com as diferentes modalidades. Em épocas de lutas sociais tão ativas e importantes, as empresas parecem estar ligadas somente ao lucro e nada mais.

Não é de hoje que tem acontecido vários eventos no mundo do skate que não necessariamente atendem à necessidades do skate em si. Marcas não operadas por skatistas chegaram em nosso mundo botando grana e fazendo times; eventos de skate sendo gerados por marcas de qualquer outro segmento; segregação de sexo e raça entre os próprios praticantes; disparidades em salários e oportunidades de skatistas de sexos diferentes; skatistas profissionais com salários absurdamente baixos e por aí vai.

Em contrapartida, marcas core fecham suas portas anualmente enquanto outras vendem o almoço pra comprar a janta e continuar na luta. Marcas essas que são os pilares das identidades skatísticas mundiais, hoje se vêem em débito com seus credores e enfrentando monstros de grandes corporações e empresas que nem fazem produtos de skate enfiando dinheiro nos atletas (sim, atletas, não somente skatistas) futuros. Claro que não podemos fechar os olhos para os erros de administração dessas marcas que, talvez, de tanto serem core, se esqueceram ao longo do tempo de que o game comercial do skate é também um jogo capitalista.

Todos esses acontecimentos são uma prova de que o sistema está tentando enquadrar o skate em categorias novas e totalmente controláveis. O fato do skate ter virado uma modalidade olímpica trouxe uma ótica de que algo que antes era um incômodo no dia a dia, hoje é uma realidade pra muitos. O que o sistema faz? Tenta enquadrar e tenta fazer dinheiro com isso, mas da sua maneira. Nessa enxurrada de possibilidades futuras, algumas marcas de skate se perdem e vendem seus ideais para o dinheiro, fazendo contratos bizarros com skatistas e, em outros casos, mandando seu time todo embora para que o lucro seja todo voltado à marca nas vendas de material. Os exemplos se repetem ano após ano, mas com a chegada das olimpíadas, os ânimos e as ideias mirabolantes parecem ser mais comuns.

A pista do Santander não é para o skatista comum e o valor colocado nela é, sim, para segregar o usuário do local onde está inserida. O banco não quer você e sua krew andando pra cima e para baixo fedidos e sujos por lá. Simples assim.

Já o Bob Burnquist e a CBSK parecem lavar as mãos para todas essas diferenças e peculiaridades desse “novo skate”, já que o que eles queriam com a presidência do Bob já foi feito: tornar o órgão o responsável pelo skate nas Olimpíadas. Engana-se quem achou que seria mais que isso. Enquanto isso, o skate perde picos de rua, faltam campeonatos amadores para a molecada que está começando e não existe incentivo para quem busca o skate como alternativa. A entidade sumiu de todas as redes sociais e não responde qualquer chamado de denúncia ou de debate.

Embora esse novo skate seja realmente novo para todo mundo que não o vive plenamente, existiu uma história por trás de cada remada e, principalmente, um abismo gigantesco entre esse skate mostrado pela televisão e o que existe desde os anos 70 que pareceu ter só brilho agora para a grande mídia. Os “futuros campeões” da Globo e companhia tem seu nome e seu peso graças a marcas de skate e mídias core segmentadas que vivem o skate como ele realmente é e batalharam/batalham para fazerem essas pessoas terem seu local de fala e seu skate mostrado. Os 30 segundos de domingo de manhã que são dados para falarem quem ganhou ou deixou de ganhar os campeonatos da semana no Globo Esporte são inúteis na divulgação de informações muito mais importantes que a colocação do futuro atleta olímpico no campeonato mundial daquele ano. O skate é tratado como esporte e os reporteres e jornalistas que falam sobre o assunto não são skatistas, ou seja, não são especializados no assunto para terem propriedade sobre tal.

Para você que está acostumado com um skate cru, com uma identidade própria e feito para todo mundo poder andar, isso vai ficar cada vez mais escasso de se encontrar. Aquele skate que é comandado por skatistas e que devolve pra comunidade do skate vai ficar cada vez mais reservado a um pequeno grupo de pessoas que entendem o que é o lifestyle da parada. Claro que vão existir grupos de resistência e nas ruas e praças o skate real nunca vai morrer. Mas talvez perca um pouco de seu propósito original que é, somente, ir andar de skate.

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3 comentários em “Skate para não skatistas: uma análise pré-olímpica

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  1. Cara, eu e meus amigos estamos a muito tempo conversando sobre essas mudanças, e chegamos as mesmas conclusões, obrigado por esse texto que fala tudo. No Brasil o skate é muito forte e por mais piegas que seja dizer isso, skate salva vidas pra caralho. Enquanto tem gente lutando pra que a comunidade seja inclusiva e abrace quem precisa na rua, o mercado quer tornar o skate um esporte de luxo, explodir o preço de tudo pra que só os pleiboy branquelo e cheiroso andem de skate e gerem mais vendas sendo modelos. Lembro do Mug falando num episodio do TGBMSSS sobre plastificar o skate pra ser aceito pela mídia mainstream (no ep do tuca), e isso nunca foi tão real.
    A proposta capitalista é plastificar os movimentos espontâneos, esvaziar o sentido das práticas artísticas pra que tudo possa ser medido em performance, vulgo, dinheiro.

    É claro que skatista não é santo nem vítima, devemos lutar e resistir a essa venda e a essa imagem, tanto quanto ter autocrítica pra que nós mesmos possamos corrigir as problemáticas do skate como homofobia, machismo, elitismo e etc… Pois se não os fizermos, ta cheio de empresa fudida doida pra comprar essas ideias por nós.

    Enfim, poderia e gostaria de falar sobre todas essas coisas por horas, mas comentar post não da muita liberdade hehe.

    No mais, parabéns pelo trabalho!

    E projetos como o de vocês também me inspiram a escrever e ser ativo no meio de tanta gente alheia a situação.

    Curtido por 1 pessoa

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