O inalcançável no skate

O skate está chegando a extremos. Ok, sempre foi um esporte “radical”, como o termo mesmo se referiu todo esse tempo, mas agora a radicalidade parece tomar níveis mais esportísticos.

Na década de oitenta, eram poucos os que andavam, mas quem andava ainda tinha um ou outro terreno para se aprimorar. Os poucos do vertical, focavam no vert e os poucos do street ainda estavam mesclando o freestyle com algumas influências novas que existiam por ali. Nos anos 90, o auge do street skate fez mais gente andar de skate por ser mais prático, não precisava ir a pistas, era só botar pra remar na rua. Dos anos 2000 pra cá, tudo mudou muito rápido. Muita gente virou overall e os acampamentos “radicais” pelo mundo a fora criaram MONSTROS que andam bem em todos os terrenos.

As pistas particulares dentro dos quintais, os Woodward, as inovações e o fácil acesso ao material fizeram tudo ser um pouco mais tranquilo pra geração que tem seus vinte e poucos anos. Eu sou dessa geração e confesso que não tem nem comparação de quando comecei a andar pra agora. Hoje em dia qualquer skateshop tem um shape de maple e as próprias marcas nacionais estão fazendo materiais de alta qualidade. Ninguém precisa ir mais pros EUA ou ter um primo que mora lá pra trazer as peças pra você e tem mais pista pública hoje em dia nos centros urbanos por aqui.

Mas esse fácil acesso aliado à essa geração de pequenos gênios que nascem sabendo já fazer tudo trouxeram o inalcançável para o nosso mundinho que, há 30 anos atrás, era de poucas pessoas. Manobras impossíveis em picos absurdos, mentes que já prevem o acerto fazem do skate uma coisa bonita, porém distante, de se ver. Grant Taylor, Jaws, Pedro Barros, Jamie Foy, Tiago Lemos… São algumas provas de que alienígenas estão entre nós. Antes o que era existir um John Cardiel, hoje são muitos, com suas toucas da Red Bull em campeonatos milionários. 14 anos e levando 500 mil dólares pra casa.

Por exemplo, a volta do CJ Collins em um dos Vans Park Series é algo absurdo

Não me entenda mal, não vai existir outro Cardiel, mas no instagram surgem prodígios voando de rampas todos os dias. Moleques que você nunca ouviu falar andando MUITO e MUITO MAIS QUE VOCÊ QUALQUER DIA JÁ ANDOU. Alguns são muito style e te inspiram, outros, por serem só um corpo voando numa manobra, podem não te impressionar.

Tem também o fator megarrampa, que é algo realmente impossível. Pistas de 25 metros de altura, com quarters de 8 ou 10 metros e os caras dão TUDO. Danny Way e depois Bob Burnquist foram os que abriram as portas desse mundo-mega e hoje muita gente já está andando nela, mesmo que, para nós, meros mortais, seja algo impossível e assustador.

Flip crooked, switch feeble, helicóptero, ollie to fakie sem segurar no quarter… Essa parte do Bob na Mega tem de tudo.

Sabe quando você vê um Nadal da vida ou um Ronaldinho Gaúcho fazendo coisas absurdas em seus esportes e você pensa “caralho, eu jamais faria isso?”. Pois isso chegou no nosso mundo também. Claro que ninguém desceria um corrimão do Heath Kirchart e acharia fácil há 20 anos atrás, mas hoje os moleques estão dando de switch e colocando algum flip in ou flip out. Jamie Foy deu crooked de front no El Toro de primeira. DE PRIMEIRA.

Uma boa maneira de se pensar essa progressão no skate é lembrar da escada de 25 degraus em Lyon na França onde o Ali Boulala tentou dar ollie em 2002. Em 2016, o acerto veio com o Aaron Homoki e seu Melon em um dos picos mais icônicos de todos os tempos. Pessoas e manobras diferentes, mas a evolução se mostrou presente em um curtíssimo período de tempo.

Os grandes campeonatos formam um espelho distante pra quem tenta ver seu reflexo nele. Uma street league da vida não empolga porque quase não existem erros. São atletas (não somente mais skatistas) muito bem treinados e prontos pra levar o dinheiro pra casa. Um Vans Park Series deixa todo mundo vibrando, mas o skatista comum que vê aquilo se cansa no terceiro 540 que alguém acerta na linha. Pra ser esses caras, tem que viver disso, respirar a parada 24 horas por dia e treinar, sim, TREINAR sempre.

Talvez por isso que vídeos de crews e de skates mais estilosos do que cabreiros fazem tanto sucesso ainda e são a base do skate divertido e daquele “mais comum”. Aquele que você se identifica, se vê fazendo e, principalmente, se vê fazendo parte. Mas o skate hoje está aí para todo mundo. Existem vários tipos de skate, desde o esporte até a arte. Se você busca o inalcançável, tem. Se você é feliz com pouco, tem também. Vá andar. O inalcançável tem parecido ser somente uma questão de coragem e ponto de vista.

2 Comments

  1. Eu acho que a intenerte e os instagramas alavancaram demais esse progresso. Lembro de uns 4 anos atrás que era moda a galera inventar uns flip absurdo e todo mundo postava tutorial no youtube depois, passou a modinha e hoje vemos varios malucos dando essas manobras absurdas e criativas em escada, corrimão e os caralho. Fora que a alta presença do skate nas redes sociais faz o bagulho ser muito mais rentável pra quem quer anunciar, causando um investimento direto no skate (e também empresas de bosta só tirando leite). Enfim, skate era uma parada de nicho muito fechado, explodiu abraçando um publico gigante, e agora ta dividindo os nichos novamente pra muito além do clássico Underground X Mainstream.

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  2. Muito legal o texto, no entanto todo esse progresso no esporte no quesito manobras, campeonatos, grandes corporações criaram uma multidão da manobreiros e não skatistas que realmente querem propagar o estilo de vida e toda a cultura envolvida. Tudo melhorou no skate e isso é bom, material bom, lugares melhores pra andar e tudo mais, mas também aumentou a competição e diminuiu a irmandade e respeito pelos que construíram o esporte.
    Anda-se de skate hoje em dia com objetivo e buscando retorno, e não simplesmente pra passar bons momentos com os amigos e compartilhando conhecimentos e historias. Não saem mais de casa se não for pra filmar ou fotografar pras redes sociais. Todo progresso que só trouxe coisa boa pro skate ajudou e muito a se perder a essência, o básico mesmo. Desde a simples skateshop local que ajuda na sua cena onde as pessoas dali fortalecem e contribuem pro ciclo se manter vivo, além das marcas nacionais sérias que fazem acontecer e fortalecem esse ciclo local primeiramente, pra depois passar a ser nacional.

    O número de pessoas que andam de skate crescem na mesma medida que diminuem o número de SKATISTAS. basta olhar pro seu pé e pro seu skate, quantas peças nacionais ou pro model de pessoas que vc admira e fala sua lingua tem no seu kit? Qual foi a ultima vez que vc usou algum? Quando vc for pro vai querer que todos usem seu shape e comprem na skateshop local da sua cidade pra vc se manter empregado, mas qual marca nacional séria, qual mídia especializada, profissional, ou skateshop de verdade vc ajudou a quebrar hoje?

    Qual a ultima vez que se colou na pista com um martelo, vassoura e rodo, só pra deixar o pico mais dahora pra todos poderem curtir, dar aquela ajeitadinha no palquinho de sempre que os “tiozinhos” fizeram pra vc andar de graça?

    Muitos lados a se dabaterem e muitas questões a serem discutidas, caminho sem volta pro skate de hoje, mas o skate que conhecemos estará vivo até quando?

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