Os Carritos e caminhos da vida do Roger Mancha

O Roger Mancha é um cara icônico no skate brasileiro. Profissional desde o começo dos anos 90, o Mancha já passou por várias dentro e fora do skate. De verticaleiro a andar pra Citystars, de estar doente a hoje fazer comida orgânica, podemos afirmar que essa história não é aquela que você um dia pensou que estava acontecendo com ele.

Passamos uma tarde falando sobre bicicletas, vegetarianismo, comida mexicana e, é claro, skateboarding. Leia a entrevista completa agora e saiba tudo:

 Trocando Manobras: Você foi um dos primeiros caras que eu vi andando de bike fixa, antes mesmo de ser moda aqui no Brasil.

Roger Mancha: Eu comecei com a fixa logo depois que descobri que estava doente. Eu precisava de um hobby diferente do skate para eu ficar focado. Depois disso, passei alguns meses procurando em sites, olhando vídeo e vi que o Natas Kaupas tinha uma bike fixa e sempre me vinha ele na cabeça quando pensava no assunto, nele e no John Cardiel. Foi uma época em que eu tinha que desviar o foco do skate, estava difícil de andar por causa do tratamento da doença, lá em fevereiro de 2013.

Eu andava de bike como uma maneira de ser algo que substituísse a sensação do skate, sabe? Mas depois eu fui diminuindo a tensão e vi que eu não ia ser o que eu queria com a fixa. É perigoso; eu não ia ter grana para tudo que eu queria para a minha bike, mas durante um ano eu fiquei viciado na parada.

Aí você vai entendendo que é a sensação igual ter um skate quando você é moleque. Você compra um Powell Peralta, mas você não entende do mercado então que se foda. Se minha bike tem um freio do lado direito, se é a melhor, foda-se, é o meu universo. A bike me deu a sensação de ser tudo novo sem ser preconceituoso. Sabe aquele moleque que hoje em dia vai na skateshop e compra o skate do Luan de Oliveira, vai pra pista, começa a entrar no Youtube e começa a entender o skate. Mas depois de um tempo, alguma coisa pode magoar o moleque, ele pode pensar “talvez meu skate não seja o melhor mas continuo andando de skate”, ou algo do tipo. Então com a fixa pra mim foi mais ou menos isso, vi uma coisa muito parecida com o skate.

E também vai naquele lance do skatista sempre procurar o que não é igual a todo mundo. Tipo “eu não vou ter uma mountain bike pra ser igual ao meu vizinho, com 28 marchas”. Eu só queria uma bike que me representasse, sabe?

Mas você continua andando de bike?

Muito menos, na verdade. Mas lembro que alguns dias antes do meu transplante, eu fui trabalhar de bicicleta e peguei a maior chuva na volta. Nada mirabolante, nada de manobras nem nada, mas ali percebi que eu tinha mais skills andando de skate no meio do trânsito do que de bike.

Saquei. E você comentou sobre a sua doença mas pouca gente sabe o que foi realmente.

Eu tive uma doença que chama GESF, que é glomeruloesclerose segmentar focal, e acontece nos rins. Eu descobri porque tinha um histórico de colesterol alto e numa ida ao médico, ele me pediu um exame que apresentou proteína na urina. Com isso ele me indicou a ver um nefrologista. Chegando lá, o nefro pediu uma bateria de exames que iam desde Aids até problema de hormônio, todas as doenças que relacionam com o rim. Aquilo me chocou, mas ao final eu não tinha nada daquilo. Então fiquei ainda mais em dúvida do que eu tinha, então o médico pediu uma biópsia. Eu não achei necessário e mudei de médico. Nesse segundo, ele avaliou os exames e pediu a mesma coisa: uma biópsia. Fiz e deu o GESF e o médico já deu a notícia naquele momento que em torno de um ano e meio eu teria que fazer um transplante.

Mas antes disso você sentia algo diferente no seu corpo?

Nunca senti.  Eu sentia um cansaço, mas achava que era por causa daquele lifestyle do skate, de tomar cerveja, de ir em festa, sair com os caras… Eu achava também que era porque eu estava mais velho e o corpo já estava respondendo à idade, então ali eu comecei a pensar em trabalhar com o skate nos bastidores porque uma hora a minha carreira de profissional ia acabar. Na verdade, a cultura do skate me fez acreditar que devido o meu cansaço era hora de parar de andar e começar trabalhar com o skate de outras formas. Mas na verdade eu estava cansado porque estava zoado, né? Isso foi em 2012, mais ou menos.

Mas voltando ao meu tratamento, logo depois de descobrir a doença, comecei a fazer um tratamento com corticoide, que é um tratamento que incha, mas foi bem ameno. Aí fui para Florianópolis passar um tempo com a Camila, minha mulher, e na volta fui falar com um médico do Albert Einstein, porque descobri que o Alonzo Morning, um jogador de basquete, teve a mesma doença que eu e fui atrás de como ele tinha se tratado. Aí nessas pesquisas eu vi que ele tinha alguma ligação com um hospital americano e alguma ligação dessas caiu com esse médico do Einstein que fui atrás.

Nas conversas com esse médico, a gente decidiu tentar fazer o mesmo tratamento que o Alonzo Mourning tinha feito. Foi uma época que fiquei bastante zoado, tomava muito corticoide, engordei quase 100 kg e tomava um remédio que era quimioterapia branca, chamado ciclosporina. Então fui perdendo a força de andar de skate. Foi a época em que a bicicleta surgiu, era mais fácil pedalar. Lembro de uma sessão que fiz em que não consegui nem subir uma guia de ollie, era foda, também não conseguia subir escada.

Depois de seis meses, o médico disse que não tinha melhorado, então decidimos fazer um tratamento paleativo, diminuindo a ingestão de proteínas, controlando a pressão. Foi aí que a alimentação começou a ser mais eficiente no meu caso. Entrei mesmo nesse universo, comecei a fazer yoga, nadar, fazer exercício, saber mais sobre comida, ler livros sobre o assunto etc.

Foi um momento também de descobrimento de religião. Quando você passa por um momento desses, você quer entender muita coisa. Só começa a entender mesmo quando passa por tudo isso. Me conectei mais com o kardecismo, queria me entender. Quando você está na merda, começa a pensar em coisas diferentes. Quando você está no fluxo da vida, você só vive, mas quando passa por um momento desses, você começa a refletir, perde o ego, porque a primeira coisa que a pessoa faz quando está doente é querer se curar. Por que você não anda na pedra? Por que você não passa pelo processo? Foi a hora que eu entendi que não era a cura, mas sim a passagem. Aí foi determinante pra entender várias coisas.

Se eu não estivesse doente, eu ia ser uma pessoa em fluxo, mas com isso refleti sobre tudo. Skate, por exemplo, você tinha que ser muito foda e às vezes eu viajei com algumas coisas, tipo balada e sempre achei que podia ser melhor. Mas depois passei a entender que eu só queria mesmo andar de skate, viver, trabalhar, provavelmente ter uma saúde melhor… Foi um momento de evolução.

Logo depois que eu terminei o tratamento, eu fui correr o campeonato da Drop Dead, dos profissionais dos anos 90. De 100 kg eu fui pra 80 kg e corri o campeonato, mesmo passando 7 meses sem andar de skate. Eu consegui andar um pouco, mas era muito diferente.

E o seu ego de skatista, como ficou com tudo isso?

Você começa a entender que aquilo que você achava que devia ter feito no passado não importa muito agora. O fato é que você anda de skate porque tem uma sensação boa. Mas existem algumas pessoas que conseguem ser um pouco melhor, mas você nunca vai ser perfeito no skate, nunca vai ser tão bom quanto gostaria de ser.

Acho que o ego eu nunca tive com o skate. Eu sempre pensei “eu ando bem mas aquele moleque anda melhor e poderia ter o que eu tenho”. Eu sempre ajudei todo mundo, sempre fui um cara que gostou de ajudar as pessoas a terem esse nível de sensação benéfica com o skate. Muitas pessoas acham que são donos do skate mas não são. O skate que te dá tudo.

Você começa a se libertar, vê que não é perfeito. Começa a ser mais ativista naquilo que você acredita. Por exemplo quando fiz a entrevista para o Black Media pensei “vai que dá merda depois de Porto Alegre, pelo menos eu falei tudo o que tinha pra falar, se eu morrer, tudo bem!”. E até hoje muita gente acha que sou hater, mas sempre falei a verdade. Posso ter falado algumas merdas, magoado algumas pessoas, mas sempre fui verdadeiro. A doença me libertou dessas amarras.

Até o momento em que eu renasci e comecei a fazer tudo de novo, curtir tudo, desde ir na loja comprar o shape com um desenho que eu curtia ou achar dahora o skate nas olimpíadas. Eu sei o que é verdade, mas tento enxergar o positivo em tudo.

Tem também o ponto do altruísmo, né? Algo que a gente começa a enxergar em momentos como este. A Camila (esposa do Mancha) ser minha doadora foi algo muito foda. Imagina você depender de outra vida para continuar a sua vida? Então ver tudo isso mudou toda a minha vida.

A alimentação então foi algo também fundamental para esse processo. Cheguei ir em gurus que impunham sua linha de dieta e de lifestyle mas a vida deles não era plena. Cheguei a ir em médicos e nutricionistas que não eram plenos. Acredito que o alimento tem que ser positivo no momento em que você acredita que ele possa ser positivo pra você. Tudo que você coloca pra dentro de você tem um preço. Então é muito mais fácil com esse caminho.

E quanto tempo durou todo esse processo do recebimento da notícia da doença até o transplante?

Recebi a notícia em setembro de 2012 e o transplante foi dia 10 de outubro de 2016. Tiveram momentos muito ruins, sabe? Eu nunca transpareci isso, mas foi muito foda.

Eu andava de skate todo dia mas depois disso comecei a andar bem menos. Vi que eu me sentia satisfeito só pelo fato de ir andar. Mas foram quatro anos difíceis, fiquei bastante debilitado.

Em 19 de junho de 2016, em Porto Alegre, eu tive um episódio em que quase morri, fiquei alguns dias internados e depois disso parei total de andar de skate. Foi louco para entender também que você pode amar muito uma parada mas relacionar com ela de outro jeito. A partir dali eu não estava andando de skate, mas estava totalmente conectado com ele, via revistas de skate, vídeos, então para mim eu vivia o skate.

E o pós cirúrgico? Como foi a recuperação?

Foi muito foda! Você vem de um corpo todo fodido para renascer. E foi um transplante de rim muito significativo, porque eu não tinha muito contato familiar, sempre fui um cara longe da família… É muito difícil você precisar de um órgão.

Às vezes eu ponho no instagram que me recuperei, que consigo hoje andar de skate, não para falar que estou vivo, mas porque eu passei noites pesquisando hashtags de pessoas que passaram pela mesma situação que eu e que conseguiam viver suas vidas normalmente. Tem diversas pessoas que sigo que fizeram transplante renal e quero ver a vida delas.

Não é uma coisa cool, quando eu posto qualquer coisa relacionada à doença, não dá likes. A coisa legal é o tênis, a comida, a foto com os amigos… Eu ainda lido muito com esse ego, mas a minha ação hoje é fazer uma boa comida, levar boa alimentação pro mundo.

Vamos falar de comida. Como o veganismo/vegetarianismo influenciou no seu processo de recuperação?

Eu entrei nesse mundo porque precisava me tratar, então por isso admiro pessoas que entram nesse caminho por conta própria, pra buscar coisas positivas pra si mesmo. Eu tive um puxão de orelha da vida, mas ainda bem que segui esse caminho.

O vegetarianismo entrou na minha vida em paralelo à minha doença. Já para a minha mulher, foi algo de empatia, mesma ela tendo já as preferências dela. Ela começou a aprender e, como ela sempre cozinhou bem pra caralho, isso também foi algo determinante,

Então a alimentação ajudou a salvar a sua vida?

Foi essencial! Eu nunca tive um sintoma sequer da minha doença, mesmo fazendo o transplante tardiamente, era pra eu ter feito em um ano e meio mas fiz em quatro. Tenho convicção que a alimentação foi essencial. A energia de você comer um alimento vivo, orgânico, sem agrotóxico versus a energia negativa de matar um animal ou comer um alimento industrializado. Não quero ser hardcore ou ativista falando isso, mas isso foi muito importante pra mim.

Outra coisa que é mais maravilhosa é o desapego á comida. Por exemplo, quando você vai para uma tour de skate e está com o cartão da empresa, você quer gastar tudo que pode, ir no McDonalds, parar no posto e comprar tudo da loja de conveniência… E quando você passa por um momento como eu passei, você desapega, você começa a agradecer por toda a comida que tem disponível, mesmo sendo um arroz, tomate e salada. Lembro de situações parecidas com essa com o Adelmo Jr. Eu o via sempre comendo a maçã e a banana dele, sempre quieto, sempre humilde com a comida dele. A gnte perguntava “mas você vai comer só isso?” e ele respondia “Mas isso está maravilhoso!”. Então com a comida a gente passa a ter essa relação de desapego também.

Ainda mais com o skate que você está sempre na rua e só tem opção ruim pra comer e todo mundo quer aquilo. Então o negócio não é ser o chato, eu sempre fui e falava “tudo bem, vamos, tem opção pra eu comer”. E aí você entende que é mais o momento de estar com as pessoas, depois você chega em casa e vai ter a alimentação que você quer.

A única coisa que você pode fazer é pensar em tudo isso: existe um caminho melhor. Ele não é árduo, você só precisa entender o seu caminho.

Você teve uma carreira grande no skate, chegando até a estar em times lá nos EUA, como o da Citystars. Por que não ter uma vida nos EUA até hoje?

Meu grande momento no skate foi no vertical. Eu tinha um certo skills para minirramp e vertical. Eu tive um grande momento com ele em 92, no mesmo momento em que o vert morreu. As rodinhas ficaram pequenas, calças grandes. Em 93 eu estava no mundial da Alemanha com rodinhas pequenas, calças largas, dando double flip. Pensei “caralho, eu voava no vertical e aqui ainda tem isso”. Quando o vertical voltou, eu já estava no street, andando de switch pra caralho. Eu sei que vários caras seguiram esse mesmo caminho, mas o meu skills mesmo sempre foi com o vert.

Quando eu entrei na Citystars eu tinha um bom skate, mas não estava no meu auge, isso foi em 2000. Eu comecei a andar em 85, 87 eu já tinha patrô e passei pra profissional em 91.

Você acha que foi o seu switchstance que chamou a atenção dos caras a Citystars?

Pode ter sido. Esses tempos atrás eu fui andar e pensei “como é difícil fazer isso e antes era tão fácil!”. Eu achava que era tão tosco, mas eu dava umas manobras boas que hoje eu penso “caralho, é foda isso”. Na minha cabeça eu não me achava tão bom na época.

O Rodrigo TX e outros caras já vieram em outra fase do skate, eles já entendiam que precisava descer corrimão e que tinha que ser bem técnico. Eu peguei uma fase antes dos anos 90, que era uma transição do vert para o street pra mim.

Mas olha que louco, em 98 eu fui para o Canadá com uns caras do Brasil e andei com o Kareem Campbell numa praça. No dia seguinte a gente foi andar em outro pico e estava o Brian Anderson, Chad Muska e eu desci o corrimão de crooked reverse de back. O Muska deu o cartão dele e falou pra colar em uma festa no mesmo dia. Essa foi uma época em que eu fui capa da Cemporcento aqui no Brasil, eu estava andando bem. Aquele era o ano em que eu devia ter entrado para alguma marca e ter entendido o game.

Só no ano seguinte quando eu fui para a Europa e me dei bem em alguns campeonatos e chamei a atenção dos caras. Depois da Alemanha em 99, peguei a grana do campeonato e fui para os Estados Unidos. O patrocínio aqui não te dava porra nenhuma, mas graças aos campeonatos eu tinha grana pra fazer essas viagens.

Nos EUA eu fiquei na casa do Haroldo Carabetti, que morava com o Willy Santos. O Haroldo fez o caminho inverso, ele não ia pra eventos nem campeonatos mas era flow da Billabong e da Birdhouse junto com o Mark Appleyard; ele tinha muito skills! Mas certo dia o Piolho (Carlos de Andrade) falou pra mim que os caras da Dwindle estavam interessados em mim e fui lá e eles me deram um monte de shape e de tênis. Duas semanas depois, fiquei em segundo em um campeonato e essa foi a deixa pra eu entrar no time da Citystars.

Algum tempo depois eu voltei para os EUA com o TX e fizemos uma sessão para a Transworld. Foi aí que eu fodi meu joelho. Eu voltei pro Brasil sem saber que tinha zoado, achei que estava batido, não tive essa preocupação. Quando voltei para os Estados Unidos de novo eu já sentia que não estava conseguindo acompanhar e foi quando eles colocaram o Paul Rodriguez na marca.

O skate da época era o seguinte: ou descia corrimão ou fazia flip in e flip out das manobras. Não era o skate alternativo que é hoje em dia. O skills que eu tinha valia mais para hoje em dia, eu acho. Naquela época, se você desse wallride ou no comply nas linhas você era zoado.

Foram acasos que também me levaram a entender minha vida e sou super grato por ter acontecido tudo isso. Hoje consigo ver que os caras que conseguiram chegar no nível do TX, Bob ou do Fabrizio Santos, esses caras são incríveis porque é muita pressão, é difícil, tem que mostrar teu skate.

Você comentou que achava que outros caras tinham mais skills que você.

Eu cresci com dó do meu skate, achava que não era bom.  Sempre achei que era bom de vertical. Eu achava que outras pessoas tinham mais skills, sempre fui muito crítico com meu skate, mas no vertical eu tinha controle total do meu skate. O street me trouxe certa habilidade.

Eu sempre achei que alguns caras tinham um nível mais foda do que eu, eu sou super crítico comigo mesmo, mas eu hoje sou satisfeito com o que fiz. Nunca tive essa parada de pensar “eu sou foda”, na verdade eu sempre achei que todo mundo era meio igual. Sempre fui muito quieto e hoje sou mais quieto ainda. Me tornei um pouco mais individualista, fazer minhas coisas sozinho.

Mas hoje em dia é totalmente diferente, sabe? Eu faço burritos, trabalho todos os dias, não tem aquele glamour. Mas é engraçado, as vezes tem uns caras que colam aí que andam ou já andaram e perguntam “Você não é o Mancha?”, mas a situação é outra, sou tranquilo com isso.

 Você ainda anda todos os dias?

Não consigo, gostaria, mas não ando todos os dias, não. Eu sempre falo com meus amigos que a gente precisa andar mentalmente (risos). Hoje em dia eu ando e em questão de meia hora eu já fiz tudo que queria, sabe? Lógico que hoje é bem mais perigoso pra mim; o médico fala que não é a coisa mais legal pra estar fazendo, que não posso cair; tomo remédio que o osso fica mais fraco, então tem tudo isso. Hoje eu ando, sou juiz em eventos, as vezes participo de alguns programas, mas tudo mais por hobby.

Mas falar “não” pro skatista é a mesma coisa que falar “sim”. Eu ando bem pouco, mas sou feliz. Hoje em dia tenho esse negócio com a minha esposa, que é a sensação de fazer algo acontecer. Quis trabalhar com o mercado de skate, mas percebi que não é pra gente, a gente foi feito pra andar.

E como começou o Carrito?

 Começou com a minha mulher, a Camila. Ela sempre foi muito simples, com força de vontade e a gente já teve algumas coisas juntos, como a Forfun Girls. Enquanto isso, ela sempre cozinhou incrivelmente bem e por conta do nosso amor por comida mexicana, essa ideia de ter um negócio com isso foi ganhando força.

A primeira vez que ela fez para bastante gente foi em 2006 e era com carne ainda, mas já tinha opção vegetariana desde sempre a gente queria atingir esse público. Algum tempo depois, o pai dela começou a ajudar com o Carrito, que era realmente um carrinho de comida mexicana. Mas nesse meio tempo a gente deu uma parada por conta do transplante, já que ela foi a doadora e eu o receptor. Depois da recuperação, ela voltou com o Carrito, um mês depois do transplante.

O primeiro evento em que o Carrito foi visto mesmo foi em uma festa da LRG, que eu trabalhava na época, com o Só Pedrada Musical. Nesse dia a gente tinha dois sabores: chilli de carne e de soja, 50/50, tanto pra vegetariano como para quem comia carne. Depois foi evoluindo, ela começou a participar de food parks e afins. Quando eu saí da LRG eu entrei junto com ela e hoje a empresa está em crescimento. Temos um quiosque no shopping Morumbi, um delivery no Ipiranga e pretendemos colocar o carrinho em feiras saudáveis, vegetarianas e afins. A gente não quer ser o maior vendedor de comida mexicana, mas sim, o maior impactante da vida das pessoas. Eu e a Camila sempre brincamos que nossos cargos são para inspirar as pessoas.

 

 A atitude skatística influencia nisso tudo?

Com certeza. O fato de andar de skate foi determinante pra vencer a doença que eu tive; não vencer, mas aprender com ela. O jeito que a gente anda de skate sem esperar muito, um dia está uma merda, outro dia melhora. E pelas experiências que tive com o skate, de pensar que o sonho não seria concretizado e me surpreender depois ou de sempre procurar pelo diferente, ir contra as coisas, contestar, perguntar o porquê das coisas. É tipo quando você tem a pista ali mas quer andar na arquibancada em volta porque é um pico mais legal.

O negócio também foi bastante influenciado por essa atitude. Claro que você não pode ser só rua, mas é só trazer todos esses pontos positivos pra sua vida. Você começa a ver que você não precisa ser infeliz sem o skate, mas o skate é a ferramente pra chegar lá.

O skate te permite conhecer novas coisas, novas músicas, ser menos preconceituoso, ser mais aberto. Tenho 42 anos e adoro o skate ainda! Adoro ter uma lixa colorida, adoro todas as modas. Não quero envelhecer, quero viver tudo iso. Quero comprar os desenhos que eu gosto, gosto de imaginar que as vezes estou sendo outro skatista. Sabe quando você compra uma roda da Spitfire porque acha que vai flipar igual ao Luan de Oliveira? Eu sei que não vou flipar igual a ele, mas quando você perder essa coisa, você vai ficar um velho rabugento no skate. É bom ser saudosista, mas o futuro é legal! Penso que várias coisas eu poderia ter feito diferente, mas do jeito que está, está ótimo!

 

WhatsApp Image 2018-04-02 at 12.57.07 (1)

____________________________

Saiba mais sobre o Carrito do Mancha e da Camila aqui: https://www.instagram.com/carrito_mexicanfood/

 

 

 

One Comment

  1. Parabéns pela sua superação!
    Nunca estamos preparados para qualquer eventualidade que apareça em nossas vidas.. Mas, temos a chance de melhorarmos nossas vidas!
    Você aproveitou e com o seu conhecimento e experiência de vida, fez com que essa sua experiência difícil é dolorosa, buscasse forças e acreditando na sua cura! Lógico que, com a busca da medicina, mais do que isso, você acreditando realmente que você queria a sua cura!
    Hoje você tem saúde para subir no sk8 e dar umas remadas.. de resto, o que vier, tá no lucro!!! Mais uma vez, parabéns pela superação e viva a vida!!!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: