Skate Music – SKATE É SÓ UM PRETEXTO

Nessa primeira parte do meu TCC para a pós-graduação em Jornalismo Cultural para a FIAM-FAAM, falei sobre música!

No artigo científico chamado “SKATE É SÓ UM PRETEXTO – Aspectos culturais intrínsecos à rotina de um skatista em São Paulo” falei sobre quatro frentes: música, cinema, arquitetura e moda.

Vou dividir em quatro vídeos e o primeiro, falando sobre as músicas e estilos mais clássicos do skate, você vê agora:

 

O texto na íntegra você encontra a seguir:

 

  1. MÚSICA – Sons que permeiam as vidas dos skatistas

 

“O cara vai correr um campeonato, escolhe uma música e bota na hora da sua volta. Que esporte tem isso? Voleibol não tem isso” – do cinegrafista Norberto Aguilar no documentário Dirty Money, de 2010.

 

Falar de skate é também falar de atividades culturais que andam lado a lado à prática. Assim como o hip hop tem  seus elementos, o skate também tem e a música é um deles. Seja nos fones de ouvidos ou nas trilhas dos vídeos assistidos pelos skatistas, a música tem fator fundamental para o clima da sessão que a acompanha. Como diz o fotógrafo Guto Jimenez no livro A Onda Dura – Três Décadas de Skate no Brasil, “poucas vezes na história contemporânea conseguiu-se unir dois ícones de rebeldia e inconformismo juvenis num só rótulo com tanta eficiência e precisão” (JIMENEZ, p. 96, 2000)

 

Em pesquisa realizada via Google Form entre os dias 21 de agosto de 2018 a 4 de setembro de 2018, 67,9% dos participantes disseram que música não pode faltar em suas sessões de skate (53 pessoas). Em outra pergunta, 28,2% responderam que vão a algum show quando saem pra andar de skate e 44,9% responderam que vão à alguma balada (os participantes puderam escolher mais de uma opção). 67,3% desses participantes afirmaram que música é uma das coisas que mais inspira para andar de skate. Então realmente a música faz parte do cotidiano dos skatistas que saem para a sessão em São Paulo.

 

A primeira música que remete ao ato de andar de skate chama “Sidewalk Surfing” da dupla Jan&Dean. “A mesma dupla comporia, em 1965, a música The Fountain, trilha sonora do primeiro filme sobre skate que se tem registro: Skaterdater” (JIMENEZ, p.96, 2000). As guitarras de Jan&Dean previam a sonoridade que marcaria a identidade do que viria ser mais tarde o “skate-rock”, com bandas que mesclam a “radicalidade” do movimento punk e do skate em suas identidades sonoras e visuais. Exemplos mais famosos desse movimento são: Suicidal Tendencies, JFA, NOFX, Agent Orange, Lagwagon etc. A lista é enorme e aqui no Brasil bandas como Charlie Brown Jr. e Os Grinders, a quem devemos atribuir nos anos 80 que “talvez seja o único registro sonoro do skate punk da época” (JIMENEZ, p.97, 2000) usaram o skate em suas letras e comportamentos, contando inclusive com membros skatistas em suas formações.

 

Para o fotógrafo Gleen E. Friedman no episódio Skate Rock do programa Lovelletters to Skateboarding, de Jeff Grosso, os ídolos de rock eram adorados nos anos 80: “Naquela época, nós todos amávamos Ted Nugent porque ele tocava mais alto, mais rápido e mais duro; isso para mim é o começo do Skate Rock” (Loletters…, 2016).  Glenn ainda afirma que Terry Nails “foi o primeiro punk a se envolver com skate e foi aí que alguns skatistas mais famosos pegaram a referência”. Para o apresentador do programa, Jeff Grosso, “DEVO é a banda mais skate rock do planeta”.

 

A banda norte-americana DEVO é uma das mais cultuadas no mundo do skate até hoje. Seu clipe de 1980 da música Freedom Of Choice tinha as lendas do skate Tony Alva e Steve Olson manobrando e isso aproximou a banda dos ouvidos dos skatistas. DEVO foi introduzido ao Hall Of Fame of Skateboarding (Hall da Fama do skate) em 2013: ” o som novo e rápido do Devo se encaixa perfeitamente, incorporando o estilo mais rápido e solto desencadeado pelo uretano” (SKATEBOARDING HALL OF FAME, Online, 2014).

 

Mas depois do rock, outro som que fez e faz bastante a cabeça dos skatistas é o rap. “Se o surgimento do hip hop arrombou e subverteu o formato tradicional da música negra, o mesmo pode ser aplicado ao skate, principalmente ao street” (JIMENEZ, p.97, 2000). O street, que é o skate praticado nas ruas, deu voz não somente ao ato de manobrar em qualquer local, mas sua marginalidade abrangeu outros estilos musicais que retratavam o cotidiano nas ruas, como é o rap. “Enquanto na década de 1980 as bandas de rock – em especial as de punk rock – eram cultuadas, na década de 1990 a preferência se voltou para os grupos de rap” (MACHADO, p.66, 2012).

 

Difícil dizer quem influenciou quem, se foi o skate que influenciou os rappers ou os rappers que influenciaram os skatistas em diversos aspectos, mas pensar em skate e hip hop é pensar em Beastie Boys, por exemplo, que sempre colocaram skate em seus clipes. “O rap influenciou tanto os skatistas que até o chamado skatewear ficou muito parecido com o que os rappers vestem (…) e é muito comum ver skatistas e b-boys se divertindo na mesma balada” (JIMENEZ, p.97, 2000). Em 2012, o rapper Ghostface Killah, do grupo Wu-Tang Clan disse que “o skate e o hip hop são a mesma coisa”. Para ele, “é o nosso modo de vida: como nós andamos, como nos vestimos, falamos, o jeito que fazemos as coisas” (Complex, 2012).

 

Essa via de mão dupla de influências pôde ser percebida de forma mais marcante nos vídeos de skate dos anos 90 dos Estados Unidos. Os skatistas, principalmente de street skate, estavam começando a abusar dos sons de rap em suas videopartes e, curiosamente, o vestuário do skate também havia mudado: as roupas largas e confortáveis, preferidas dos rappers da época, começavam a serem vistas nos corpos flutuantes dos skatistas. Um exemplo dessa influência é o brasileiro Rodrigo TX, que em todas as suas videopartes escolheu alguma música do grupo de rap Mobb Deep, influenciando assim uma legião de fãs do skate do TX a gostarem também de rappers.

 

Em São Paulo, os skatistas frequentam as mais diversas casas noturnas e shows pela cidade. Muitos podem ser vistos em shows de hardcore e heavy metal no Fabrique e na Clash (ambos na região da Barra Funda) enquanto outros preferem músicas brasileiras e rolês mais groovados como o Boteco Prato do Dia, Mundo Pensante e a Punky Reggae Party da Fatiado Discos. Os rolês de rap da capital também abrigam muitos skatistas, dentre eles a Trackers e o Nola são os preferidos da tribo, ou simplesmente seguir as festas do DJ Nuts e do KL Jay.

 

Apesar do rock e do rap serem, historicamente, aliados do skate, outros estilos de música também se fazem presente no dia a dia do skatista. Nos dias atuais, influenciados pelos vídeos do instagram e pela pluralidade de influências que a internet possibilitou, skatistas fazem seus vídeos com os mais diversos tipos de música. Um dos estilos mais buscados pelos skatistas atualmente é o eletrônico, em especial a House Music, criado em Chicago, nos Estados Unidos, em meados dos anos 80, no clube The Warehouse.

 

Para Chip E no documentário “Pump Up the Volume” de 2001, o nome House Music é uma derivação do nome da balada onde o ritmo ficou famoso: “Nós classificávamos os discos vendidos como ‘tocadas na Warehouse’ e então depois nós encurtamos (…) para House Music” (Pump Up…, 2001). Mas esse estilo chegou aos skatistas influenciados pelos sons que tocavam em baladas da Europa em meados de 2015. Em entrevista para a Grey Skate Mag, Rory Milanes, que é skatista e DJ, disse: “vi um ótimo DJ chamado Moodymann e ele estava tocando disco e soul music e discos de house e isso era um som novo pra mim e totalmente excitante” (Grey Skate…, 2014).

 

A primeira marca a realmente colocar a House Music em seus vídeos foi a britânica Palace Skateboards. Para Daryl Mermson em seu artigo “How Skateboard Learn to Love House Music” (Vice, 2016), as “estéticas do House foram decisivas para o posicionamento da marca”. Segundo ele, “não demorou muito para a influência da House Music ser sentida em outros vídeos”.

Parece que o zeitgeist hoje em dia (que pode ser denotado pelas seguintes coisas: discos de house, peças fashion fora de moda, chapéus rosa e itens de marcas esportivas não feitos pela Nike) envolvem o mix desses dois mundos, então vídeos de skate de todo mundo se mexem ao som de Chicago. (MERMSON, Online, 2016).

 

Mas mesmo com a grande influência da música eletrônica no skate moderno, isso não significa que outros estilos, como o rap, rock e qualquer outro, sejam menosprezados pelos skatistas. “Se há alguma coisa de bom na música relacionada ao Skate, é o fato de que o surgimento de um ritmo não necessariamente coloca um outro na prateleira; como sempre, o futuro da Skate Music é imprevisível”. (GIMENEZ, p. 97, 2000)

 

Bibliografia: 

FRIEDMANN, Glenn E., “Loveletters to Skateboarding: Skate Rock”, Vans, 2016, Online, acessado dia 14/09/2018 as 14:43, https://www.youtube.com/watch?v=ib5S29Z0-og

 

JIMENEZ, Guto, et al., A Onda Dura: 3 Décadas de Skate no Brasil, São Paulo, Editora Parada Inglesa, 2000.

 

JONZE, Spike, Spike Jonze | The Nine Club With Chris Roberts – Episode 7, The Nine Club, 2018, Online, acessado em 20/09/2018, as 10:24 https://www.youtube.com/watch?v=9it7xFFbJb4

 

KILLAH, Ghostface, , “Ghostface Killah Speaks On Skateboarding And Hip Hop”, Syron, Hip Hop DX, 2012, Online, acessado em 25/09/2018, as 15:43, https://hiphopdx.com/news/id.19409/title.ghostface-killah-speaks-on-skateboarding-and-hip-hop#

 

KOZLAKOWSKI, Alan et al., Tribos Urbanas, Vol.2, São Paulo, Uninove, 2003.

 

MACHADO, Giancarlo Marques Carraro, De carrinho pela cidade: a prática do skate em São Paulo, São Paulo, Editora Intermeios, 1ª ed., 2014.

 

MERMSON, Daryl, “How Skateboarding Learned to Love House Music”, Vice, 2016, Online, acessado em 15/09/2018, as 20:09, https://thump.vice.com/en_us/article/nzmzg7/how-skateboarding-learned-to-love-house-music artigo sobre house e skate

 

MILANES, Rory, “Rory Milanes Interview”, Henry Kingsford, Grey Skate Mag, 2014, Online, acessado dia 27/09/2018, as 14:35, https://www.greyskatemag.com/2014/09/rory-milanes-interview/

 

MUROLO, Rafael, “Cartilha de Espaços Skatáveis na Cidade de São Paulo”, Sidney Arakaki, Skataholic, 2018, Online, Acessado em 15/10/2018, as 19:50, https://www.skataholic.com.br/2018/09/cartilha-de-espacos-skataveis-na-cidade-de-sao-paulo/

 

VIANNA, Alexandre, Dirty Money, Dirigido por Alexandre Vianna e Ricardo Koraicho, Visual Pleasures, 48 min., son., color, Online, acessado dia 16/09/2018, as 09:54,  https://www.youtube.com/watch?v=vLEHf0-yWrg&t=923s

 

WOLF, Cam, “Supreme is now a billion dollar streetwear brand”, GQ, 2017, Online, acessado em 24/09/2018 as 14:51, https://www.gq.com/story/supreme-billion-dollar-valuation

 

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