Skate e Arquitetura de São Paulo – SKATE É SÓ UM PRETEXTO

Nessa segunda parte dos vídeos relacionados ao meu TCC da pós-graduação em Jornalismo Cultural, chamado “SKATE É SÓ UM PRETEXTO – Aspectos culturais intrínsecos à rotina de um skatista em São Paulo”, falamos sobre a relação do skatista com a arquitetura paulistana.

 

Leia a parte de arquitetura na íntegra:

  1. ARQUITETURA – A relação dos skatistas com a arquitetura moderna de São Paulo

 

Sair para andar de skate em São Paulo é também sair para viver a cidade de uma forma única. Em pesquisa realizada via formulários do Google, do dia 21 de agosto de 2018 a 4 de setembro de 2018, 79 pessoas responderam algumas questões sobre o tema. Os números da pesquisa mostraram quais locais de São Paulo os participantes mais frequentam:

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83,5% dos participantes responderam que escolhem os locais acima pelos obstáculos de skate que encontram por lá (por sua arquitetura); em segundo, 77,2% respondeu que escolhe por conta dos amigos e conhecidos que encontra em cada local (os participantes puderam escolher mais de uma alternativa).

 

Mas por que os skatistas escolhem esses locais citados acima em São Paulo? O que eles têm de diferente dos demais? Nessa mesma pesquisa, 83,3% dos skatistas responderam que buscam os obstáculos de skate presentes em cada “pico” (como o grupo se refere ao local de prática). Outros 53,8% disseram que escolhem o local por ser de fácil acesso, sendo perto de linhas de ônibus e/ou do metrô (os participantes puderam escolher mais de uma opção).

 

Em entrevista à este artigo, o skatista profissional Murilo Romão afirma que a relação do skatista com a arquitetura urbana é bastante íntima. Segundo ele “geralmente os picos clássicos do skate são os picos clássicos de arquitetura, coincidentemente ou não”. Se pararmos para pensar nos lugares preferidos pelos skatistas de rua em São Paulo, Murilo tem razão. Museu do Ipiranga, MASP, Pátio do Colégio, Praça da Sé, Vale do Anhangabaú são alguns dos exemplos onde amantes do skate e amantes da arquitetura se encontram e dividem gostos parecidos pelas bordas e vãos.

 

Ainda para Murilo, o olhar urbano do skatista vem antes dele escolher o skate: “eu já olho pra cidade desde que nasci, mas o skate fez isso mudar, ajudou a me interagir de uma maneira diferente com a cidade”.

 

2.1 Skate no chão e mão na cabeça – a repressão história do skate paulistano

 

Andar de skate nas ruas e calçadas de São Paulo não é algo recente e, certamente, sua repressão também não. Em 1988, o então prefeito Jânio Quadros “ordenou que a prática (do skate) fosse proibida por todas as ruas da cidade de São Paulo.” (BRANDÃO, p. 306, 2014). Essa foi a maior proibição do skate na história da cidade, tendo seu fim apenas com a próxima prefeita, Luiza Erundina, em 1990:

 

A relação da prefeita com os skatistas lhe valeu uma entrevista no Jornal Folha da Tarde, em sua edição de 16 de julho de 1990. O impresso deu evidência ao feito sob o sugestivo título: ‘Erundina: a prefeita que ama o skate’. (BRANDÃO, p. 315, 2014)

 

Depois de Erundina, muita coisa mudou em relação à prática do skate na cidade. As proibições, apesar de não serem mais tão explícitas quanto no mandato de Jânio Quadros, ainda existem até hoje. Para Murilo Romão, “a galera tem se mostrado bem mais mente aberta, você consegue andar em vários lugares de boa”. Mas ele adiciona: “sempre vai ter gente que não gosta de skate, o skate é difícil de engolir, faz barulho, quebra, tem o estigma do skatista malvado”.

 

2.2 A São Paulo atual – mais locais de prática e skatistas espalhados

 

Alguns grandes movimentos arquitetônicos da São Paulo moderna ajudaram a fomentar ainda mais o skate na cidade. A mudança das calçadas da Avenida Paulista, que tiveram suas obras finalizadas em 2009 e a revitalização da Praça Roosevelt na região central em 2012 deram não somente novas óticas a estes locais como fizeram surgir mais “picos skatáveis” na cidade.

 

Conversando com Murilo Romão, ele reflete a questão do uso do espaço público pelo cidadão paulistano: “Até então, São Paulo estava afundada em shopping centers e a Roosevelt meio que foi um respiro, um espaço público central que todo tipo de gente quer ir, um lugar democrático. E depois disso surgiram vários outros, começaram também as ideias de fechar ruas e avenidas, parece que o paulistano quis voltar pra rua”.

 

Nos últimos anos, a cidade também vem ganhando pistas públicas, como, por exemplo, a pista do Parque Dom Pedro, inaugurada em 2013; o Centro de Esportes Radicais no Bom Retiro, inaugurado em 2016; a Pista da Mooca, inaugurada em 2016; pista da Vila Prudente, inaugurada em 2014; e mais recentemente, o Parque Cândido Portinari ganhou uma pista de moldes olímpicos da Vans, inaugurada em 2018. Esses são alguns exemplos de pistas perto da região central que ajudaram no fluxo de skatistas pela cidade. Em entrevista, Murilo afirma que “com essa coisa de fazer chão novo, por exemplo a Avenida Paulista sem a pedra portuguesa, com um chão liso, ou as muitas novas pistas… Deu uma espalhada, tem pico perto de todos os skatistas de São Paulo. É ‘da hora’ ter pista porque facilita pra quem quer andar na rua.”

 

O skate também tem se mostrado uma ferramenta de transformação do uso do espaço urbano. É comum ver skatistas por todos os cantos da cidade, em lugares movimentados e em lugares onde poucas pessoas circulam, seja pela segurança ou pelo abandono. Murilo enxerga o skatista como aquele que faz a “manutenção dos espaços ociosos”. Leia o trecho da entrevista na íntegra:

 

“O skatista faz a manutenção do lugar, deixa muito mais seguro porque o habita por várias horas. Não é como passear com o cachorro, é tipo, toda hora tem gente ali andando de skate. São vários turnos, né? Se você for em um lugar tipo a Roosevelt, tem gente que trabalha e anda só a noite, quem vai de tarde, quem vai de manhã, sempre vai ter gente. O skatista dá vida pros lugares e até dá uma gentrificada, porque o skatista expulsa os grupos mais marginalizados ainda que ele.

 

Lugar ocioso, sabe? O skate denuncia os lugares ociosos. Olha o que aconteceu à Praça Victor Civitta recentemente, a praça estava abandonada e depois dos skatistas indo lá andar, já teve evento, festival de luzes etc. O skate denuncia o lugar que está totalmente abandonado. A galera que não é do skate tem medo de ir nesses lugares e o skatista vai que vai e todo mundo respeita.”

 

Esse olhar diferenciado do skatista para os espaços urbanos atrai também representantes políticos e de órgãos públicos para a prática do skate na cidade de São Paulo. Exemplos de vereadores que usam o skate como plataforma de suas campanhas são comuns nas épocas de eleições e, é possível notar, a presença de políticos nas reformas e construções de pistas na cidade. Existe até uma Cartilha de Espaços Skatáveis na Cidade de São Paulo, criada pela Secretaria Municipal do Desenvolvimento Urbano, através do skatista e arquiteto Rafael Murolo que, segundo ele, em entrevista ao blog Skataholic, de Sidney Arakaki “é (para) passar a ideia de que o skate está presente na cidade, que é um uso legítimo do espaço, assim como o passear, o brincar, o jogar, o descansar – hoje em dia, de todos os usos possíveis, infelizmente parece que só o “comprar” é valorizado”. (Skataholic, 2018)

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