Skate e Cinema – SKATE É SÓ UM PRETEXTO

Para a terceira parte dos vídeos do meu TCC da pós graduação em Jornalismo Cultural, falei sobre a relação do skate com cinema!

Assista em:

Leia a parte de cinema na íntegra aqui:

3.CINEMA – O skatista contando sua própria história

O skatista tem grande ligação com a arte de gravar a vida em vídeo. Um dos maiores aliados históricos do skatista é o vídeo e, desde o primeiro curta-metragem produzido falando de skate, o SKATERDATER, de 1965, dirigido por Noel Black nos Estados Unidos, o skate utiliza-se dessa ferramenta para registrar não somente as manobras, mas todos os aspectos da sua cultura ali daquele momento em questão.

 

O cinema, não só do skate, é um grande aliado dos movimentos sociais. Para Allan Kozlakowski, em seu artigo “Metáfora e Cinema na construção da identidade das tribos urbanas”, “a equação cinema e cultura jovem foi enfatizada a partir da década de 50, com a investida no estilo rebelde” (KOZLAKOWSKI, p. 49, 2003). Os filmes protagonizados por James Dean, por exemplo, mostravam jovens idealizados nas roupas e nos trejeitos. “Juventude Transviada” (Rebel without a cause), de 1955, do diretor Nicholas Ray, mostra Dean em um estereótipo que mudou a vida dos jovens norte-americanos e chegou até o Brasil: cigarros, jaquetas de couro, gel no cabelo e motocicletas eram os acessórios que os jovens imitariam e imitam até hoje como forma identitária. Assim como no skate, em que os skatistas se inspiram em seus ídolos dos vídeos, copiando-lhes vários aspectos das vestimentas até o jeito de manobrar, os filmes foram fundamentais para construírem um imaginário ideal na cabeça do jovem que buscava inspiração além de seu mundo. Como afirma Kozlakowski, “nesse sentido, para escrever o texto da tribo, os jovens compõem sua expressão visual e a reproduzem a partir do modo de agir apreendidos nas  imagens fílmicas” (KOZLAKOWSKI, p. 54, 2003).

 

Mas apesar do SKATERDATER ter sido o primeiro filme de skate da história, os vídeos seguintes não seguiram sua linha de atuação, em que os atores andavam de skate e faziam parte de um grupo social mas a ênfase era na história romântica do curta. Os mais clássicos e preferidos pelos skatistas são filmes que enfatizam mais as manobras do que as atuações cênicas dos protagonistas na obra. Apesar do clássico Mouse, da Girl Skateboards, de 1996, ter uma história permeando as “partes dos skatistas” (parte do vídeo em que cada skatista apresenta suas manobras), ou do vídeo Can’t Stop da The Firm Skateboards, de 2003, que também apresenta os skatistas encenando entre suas partes, o que mais marca o imaginário do/da skatista que assiste a um desses vídeos são as manobras, estilos e músicas de cada skatista presente neles.

 

Aqui no Brasil, o primeiro vídeo de skate também não apresenta os padrões dos vídeos clássicos de skate mundiais: o “Skate, o Esporte Emoção” falou sobre o V Campeonato Brasileiro de Skate do Itaguará de 1987. O filme foi uma produção da Vision Sports Films/Phoenix, com direção de Marcelo Laxe e Haroldo Nogueira, com trilha sonora de Grinders, Kães,Vadius, Lobotomia. Essa bandas davam o tom punk dos skatistas e eram também produto da influência americana no skate brasileiro. O documentário fala um pouco do skate brasileiro, mas foca no campeonato de Guaratinguetá, ou seja, não era um video com partes, nem skatistas convidados, mas sim, uma grande reportagem do evento.

 

O primeiro vídeo com moldes tradicionais de vídeos de skate no Brasil foi o Speed Only, de 1991, com Marcio Tarobinha, Charles Chaves, Cesinha Augusto e outros skatistas que foram os primeiros a terem suas partes separadas por música, cada um tinha a sua. Mais tarde, Silly Society e Dirty Money, de 1993 seriam os mais aclamados vídeos de skate feitos até então no Brasil.

 

Uma coisa que motivou muito a galera a fazer um vídeo, não era só a questão de mostrar manobra. Mas era questão de mostrar uma cultura que a gente tava vivendo na época, de como se vestir e de músicas que a gente escutava. (VIANNA, Dirty Money, 2010)

 

Depois do boom do street skate nos anos 90, gravar vídeos foi se popularizando entre os skatistas e se tornou parte da sua cultura mundial. Hoje em dia, com os smartphones e aplicativos voltados à reprodução de fotos e vídeos, isso se tornou ainda mais presente no dia a dia do skatista. Mas mesmo com vídeos na palma da mão e reproduções a qualquer hora do dia, o skatista ainda carrega consigo a necessidade de se fazer festas de lançamento dos vídeos de marcas e grupos que se juntam nas cidades. As famosas “premières” são eventos comuns na rotina do skatista e, em São Paulo, algumas casas são famosas por exibirem vídeos de skate, como o Matilha Cultural e o Cine Olido, ambos na região central da cidade. Antigamente (como visto no documentário Dirty Money) era o Der Tempel, mas hoje em dia, o Olido, com curadoria de Sulla Andreato, é a casa da cultura alternativa audiovisual da capital paulista.

 

O Cine Olido é o espaço mais famoso para exibição de filmes de skate no Brasil, mas várias outras salas de cinema em São Paulo também já exibiram videopartes: a Cinemateca Brasileira exibiu em 2014 o vídeo Cityzen da Vibe Skateboards; o Museu da Imagem e Som exibiu em 2012 o vídeo Uni.Versus; o Cine Belas Artes exibiu o vídeo Daedalus da adidas skateboarding em 2018. Isso sem falar dos bares que apoiam a cena local do skate, como o Scar no centro ou a Void no Largo da Batata, tendo o skate e a exibição de vídeos do tema em sua programação.

 

Mas não só o skate sofreu influência da sétima arte, como o contrário também ocorreu. Filmes como Kids, de Larry Clarke e Mid 90s, de Jonah Hill trazem a temática do skate em seus roteiros e sua história se baseia nas vivências dos jovens skatistas, apresentando aspectos culturais das gerações retratadas. O diretor Spike Jonze também é outro que é conhecido por seus trabalhos no skate e fora dele: de dirigir vídeos das marcas Girl Skateboards (Yeah Right em 2003 e Pretty Sweet em 2012), Blind Skateboards (Video Days em 1991) e Lakai Footwear (Fully Flared em 2007); a assinar a direção de filmes famosos como Her (2013) e Jim and Andy (2017). Em entrevista para o podcast The Nine Club Show, Spike disse que o skatista Mark Gonzales é uma das maiores influências de sua vida: “ele (Mark Gonzales) é um dos caras que mais me influenciaram; no jeito de pensar e como ele vive a vida”. Para Spike Jonze, o “Gonz” “realmente pensa de uma maneira abstrata”.

 

Em entrevista para este artigo, o videomaker brasileiro Eric Veloso, que estudou Cinema Digital, na Faculdade Metodista de São Bernardo do Campo, falou sobre as convergências do cinema e skate, e sobre as suas experiências mesclando esses dois mundos:

 

“Acho que estudar o cinema primeiro e depois ir filmar skate me deu todo um knowhow de o que eu deveria filmar, e o porquê eu deveria filmar. Como deveria filmar, quem deveria filmar e pra que eu deveria filmar. Saber planejar pra sair pra filmar. Criar um argumento forte pro vídeo que for fazer, porque no cinema cada take custa às vezes milhões de dólares, independente se tá filmando com uma Alexia (câmera digital profissional) ou uma Arriflex (câmera de película profissional), e tudo que é filmado em um filme, com um roteiro e tudo mais, tem um porquê. Uma agulha discreta no criado mudo de um filme do Iñárritu tem um porquê, e não está lá porque é uma imagem bonita ou algo estético. Com certeza ela tem uma ligação com o take rodado, com a personalidade do personagem ou algo do tipo. Nada é feito sem pensar e sem planejar antes.”

 

Essa é a visão que o cinema me deu sobre o que é filmar. Filmar não é só apertar o rec. Já dizia Glauber Rocha: ‘Uma câmera na mão, e uma ideia na cabeça’. Não basta só sair pra gravar. A idéia tem que estar lá, mesmo que não desenvolvida em todo seu potencial. Saia com uma ideia e transmita ela através dos Recs.”

 

Bibliografia:

 

FRIEDMANN, Glenn E., “Loveletters to Skateboarding: Skate Rock”, Vans, 2016, Online, acessado dia 14/09/2018 as 14:43, https://www.youtube.com/watch?v=ib5S29Z0-og

 

JIMENEZ, Guto, et al., A Onda Dura: 3 Décadas de Skate no Brasil, São Paulo, Editora Parada Inglesa, 2000.

 

JONZE, Spike, Spike Jonze | The Nine Club With Chris Roberts – Episode 7, The Nine Club, 2018, Online, acessado em 20/09/2018, as 10:24 https://www.youtube.com/watch?v=9it7xFFbJb4

 

KILLAH, Ghostface, , “Ghostface Killah Speaks On Skateboarding And Hip Hop”, Syron, Hip Hop DX, 2012, Online, acessado em 25/09/2018, as 15:43, https://hiphopdx.com/news/id.19409/title.ghostface-killah-speaks-on-skateboarding-and-hip-hop#

 

KOZLAKOWSKI, Alan et al., Tribos Urbanas, Vol.2, São Paulo, Uninove, 2003.

 

MACHADO, Giancarlo Marques Carraro, De carrinho pela cidade: a prática do skate em São Paulo, São Paulo, Editora Intermeios, 1ª ed., 2014.

 

MERMSON, Daryl, “How Skateboarding Learned to Love House Music”, Vice, 2016, Online, acessado em 15/09/2018, as 20:09, https://thump.vice.com/en_us/article/nzmzg7/how-skateboarding-learned-to-love-house-music artigo sobre house e skate

 

MILANES, Rory, “Rory Milanes Interview”, Henry Kingsford, Grey Skate Mag, 2014, Online, acessado dia 27/09/2018, as 14:35, https://www.greyskatemag.com/2014/09/rory-milanes-interview/

 

MUROLO, Rafael, “Cartilha de Espaços Skatáveis na Cidade de São Paulo”, Sidney Arakaki, Skataholic, 2018, Online, Acessado em 15/10/2018, as 19:50, https://www.skataholic.com.br/2018/09/cartilha-de-espacos-skataveis-na-cidade-de-sao-paulo/

 

VIANNA, Alexandre, Dirty Money, Dirigido por Alexandre Vianna e Ricardo Koraicho, Visual Pleasures, 48 min., son., color, Online, acessado dia 16/09/2018, as 09:54,  https://www.youtube.com/watch?v=vLEHf0-yWrg&t=923s

 

WOLF, Cam, “Supreme is now a billion dollar streetwear brand”, GQ, 2017, Online, acessado em 24/09/2018 as 14:51, https://www.gq.com/story/supreme-billion-dollar-valuation

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