Entre sessões: um papo com Raynan Sanchez

O Raynan Sanchez é um jovem veterano no skate e na arte. Você deve se lembrar dele de longos e difíceis noseslides ou de letras caligráficas por aí. O que importa, na verdade, é que ele sempre foi e é bom no que faz. 

Seja na sessão no Páteo do Colégio ou ateliê, o Raynan mostra que é possível fazer o que gosta com humildade e perseverança. Foi numa dessas sessões que a gente sentou e conversou com ele:

E aí Raynan! Se apresenta aí pra quem ainda não te conhece.

Sou o Raynan Sanchez, 22 anos, skatista e calígrafo, faço umas artes e trabalho com produção cultural.

O que veio primeiro, a arte ou o skate?

O skate veio bem antes. Antes de eu pensar em conhecer a galera do skate, eu já gostava de skate. Minha vó me deu um skate de aniversário, aqueles de plástico e depois eu fui atrás de comprar um outro. Comprei um shape da Black Sheep com o mano da lavanderia da esquina da minha casa! Aliás, esse mano distribui Black Sheep até hoje, faz uns 15 anos já! 

Aí comecei a andar na rua e conheci o pessoal que anda comigo até hoje, que inclusive sempre compraram peça com esse mano da lavanderia também! Depois deu ruim, né? Virou vício e aí fudeu! 

Me explica um pouco da sua arte. 

Como arte… Tem que pensar direito esse conceito porque tudo o que a gente faz no meio que vivo é arte, pelo menos pra mim. Mas no momento eu faço abstração com caligrafia. Eu fuso mais caligrafia porque eu comecei nesse rolê, na real. Passei por uma época bem zoada na vida e a caligrafia me acalmava bastante. 

Hoje meu trampo gira em torno bastante de letra. Caligrafia e abstração desde o começo.

Foto por @guidejesus

Quem foram suas inspirações no começo?

Minha primeira inspiração foi o Rafael Kamada, um mano também do skate de milianos. Ele começou a fazer faculdade e entrou na pira de caligrafia também. Anos antes de eu começar a fazer, ele me deu um toque pra eu tentar fazer, mas desencanei…

Mas quando eu precisei de algo pra me desestressar, ressurgiu a caligrafia e minha maior referência foi o Kamada. Eu sempre olhei pros manos mais próximos, não necessariamente pra dar um salve no cara e pedir dicas, mas pra me inspirar, fazer parecido e depois dali procurar o meu caminho. Ele é minha primeira e maior inspiração pelo que ele fez e continua fazendo. 

Depois comecei a conhecer outras pessoas e caminhos, conhecer mais caligrafia… Depois trampei com o Flip e quem conhece o rolê sabe que ele é muito foda. Ele me passou base de várias coisas, fui assistente dele um tempão. Foi um cara que me fez desenvolver e crescer no meu trampo e faz isso até hoje. 

Tenho 3 grandes inspirações, o Kamada, o Flip e o Delog, que tem um trampo muito foda. 

E o que fora da arte te inspira?

Eu trampo com arte, mas faço isso mais por gostar, então tem muita coisa que me inspira fora do mundo da arte. Por exemplo, a gente é corinthiano e o Corinthians soltou uma camisa com caligrafia muito foda e isso já me inspirou! 

Viver na rua é algo que me inspira de vários jeitos diferentes, ver o que outros artistas fizeram, o jeito que foi feito aquilo, as formas, as letras… 

O Wallace Costa é um cara que me inspira pra caralho. Ele é um dos meus pais, me ajudou desde o começo, não só com arte, mas com a vida. Ele faz foto, escultura, nada a ver com o que eu faço, mas é um mano que eu vejo o trampo e já quero fazer algo! Ele é sinistro.

Tudo me inspira, um banner, um pixo, alguma referência na internet… As parada de moda me inspira, os cara gringo que pinta uns carros, os caras do skate que fazem arte. Tudo isso faz você achar referências novas. 

Como foi viver de arte e de projetos culturais em 2020?

Difícil, hein? Fui convidado pelo Kamau pra produzir com ele e quando começamos a fazer uns trampos juntos, logo veio a pandemia e travou tudo. 

Conheci uma pessoa muito legal, a Maju Toffuli, que é uma produtora cultural bem foda e ela é jovem igual a mim. Ela me ensinou muita coisa, mostrou que dava pra trampar mesmo com a pandemia, me envolveu em cursos… Ela foi importante esse ano! 

Estou estudando o máximo que consigo sem fazer uma faculdade ainda. Esse ano eu trampei mais com arte do que com produção, na verdade. 

Vamos falar de skate, você era conhecido pelos noseslides. 

Quando eu nasci, Deus olhou pra minha cara e falou: você vai dar nose, viu, filhão? Haha! 

Mano eu ficava até bravo! A galera falava que eu só sabia dar nose, mas fazer o que? Eu sabia mesmo! E sei até hoje, na verdade! 

Os noses do Raynan para o SKATELIFE

Você era o cara que zoava a base dos trucks antes das traves.

Quando eu andava o dia inteiro de skate, o Hiena ficava puto comigo porque eu tinha patrocínio da distribuidora Hordem e ele me dava os Metallum, mas como eu só dava noseslide, ele só me dava as bases porque eu só gastava elas! 

Quando eu via que a base da frente estava chegando na chupeta, eu colocava a base do truck de trás e usava até chegar na chupeta também. Aí o Hiena falava: “dá outras manobras, uns krookeds, pelo amor de Deus!”

Eu gastei muita base nessa época. Agora estou mais devagar, fazendo os solinhos, mas era sinistro. Os noseslides me deixaram reconhecido na época porque fiz bastante coisa dando nose. Claro que tem outras manobras que sei dar, mas o nose foi importante nessa época. 

Dei alguns que foram difíceis pra mim, até eu não acreditava. Lembro de uma vez que eu estava andando no Páteo do Colégio com o Hiena, Bocão, Thiago Garcia e com o Pat, fazendo um solo. Dois dias antes, eu tinha colado no Vale andar com os caras e pra mim o pico era um desespero, não sabia andar lá. Mas nesse dia eu dei um nose quase varei a pedra debaixo. 

Nesse dia que eu estava andando no Páteo, o Hiena perguntou se o Bocão estava esperando pra filmar alguém e ele disse que não. Aí ele deu a ideia de me filmar no Vale, pra eu voltar esse noseslide. Imagina essa cena? Eu fui tremendo. 

Mas chegando lá, os primeiros não estavam rolando porque eu estava com medo. O Bocão chegou com a pressão psicológica que só ele sabe fazer! Se eu erro três, ele já começa a xingar e te incentivar a fazer de verdade. 

Nesse dia eu dei noselide nollie flip pra baixo e foi muito da hora porque eu não sabia que o Formiga estava olhando. Eu não tinha visto ele por ali até a hora do acerto. Quando eu acertei, ele me cumprimentou, me senti muito bem de ter dado essa num pico difícil. 

O noseslide nollie flip no antigo Vale começa em 1:23

E qual o segredo pra dar um noseslide bem encaixadinho? 

É mais fácil fazer do que falar pra mim, na real. Mas acho que o segredo é deixar o corpo leve em cima da borda, mas com o pé da frente bem firme. Não é força, é jeito, tem que ficar com o corpo reto em cima da borda. Na hora de sair tem que virar o corpo. 

E vela, né?

É, não esquece da vela! Até hoje a galera me vê e já sabe que eu tenho vela por causa dos noseslides! 

Você era da vegetal e da metallum. como era sua relação com o hiena? o quanto ele te influenciou?

Era uma relação de um pai que eu nunca tive. Na época meu pai era vivo, mas ele não era presente. O André me ensinou tudo que sei como pessoa. Ele e o Wallace puxavam a minha orelha quando precisava e me ensinavam muito. Ele era mais velho e me ensinava de verdade. 

Quando eu comecei a andar para as marcas dele, não estudava. Ele falava: “se você não voltar pra escola esse mês, não vai receber sua cota!”. Ele me ensinou muito de verdade. Depois que ele partiu, me ensinou mais ainda. Foi quando a ficha caiu e entendi que skate poderia não ser meu meio de viver, só de sobreviver. Ele me ensinou desde o começo que não tinha que só andar de skate, mas fazer coisas em paralelo. 

Foi uma relação muito style, pena que ele teve que partir. Parece que os caras mais dahora vão primeiro, né? 

O que é o skate pra você hoje?

Hoje é a rota de fuga, pego ele quando quero me divertir. Eu andei de skate bastante tempo e estava no meio do game, mesmo não sendo tão bom quanto os amadores do game, eu tive um certo reconhecimento. 

Hoje é mais pra fazer um solo, me divertir… Eu estou reaprendendo a me divertir só andando de skate. Hoje eu aprendo mais manobra do que antes! Skate é o que preciso pra me divertir. Se tudo estiver zoado, o mundo acabando, eu vou pegar e andar de skate.

Voltando pra arte, qual o maior trampo que você já fez? 

O que eu mais me orgulho é a exposição que fiz com o Kamada. Não foi o maior trampo, mas é o que mais me orgulho porque foi com um cara que me inspirou desde o começo a fazer arte. Além disso, fizemos mó corre, nos internamos em um porão de uma casa e fizemos a exposição em um mês. 

O apelido ateliê era calabouço e depois virou cativeiro! E como desde o começo ele foi inspirador, essa exposição foi bem importante. 

Fiz outras coisas depois, collabs com lojas de skate, que sempre quis fazer. Foi bem legal também. 

Kamada e Raynan

E sua relação com o Kamau, você já até fez arte pra show dele, né? 

O Kamau é meu parceirão. Ele é um dos caras que me ensinou bastante, mas ele é muito meu amigo também. Quando precisamos rir, a gente ri junto. Quando é pra ser chato, os dois são chatos. 

Esse trampo de arte pro show dele foi na pandemia, foi um telão com live com um trampo digital meu. Ele queria uma arte minha com a cidade passando ao fundo. Chegando lá, não estava do jeito que imaginei, não gostei tanto, mas tinha tanta pra fazer que no começo ficou assim mesmo.

Mas uma hora lá eu fiz questão de arrumar isso e aí ficou do jeito que a gente imaginou. No fim, o Kamau virou pra mim e falou “tá vendo? É bom ser chato, ficou do jeito que a gente queria!”

Raynan e o Marcus Vinícius. Foto @t.thomas

Como que um artista faz dinheiro com sua própria arte no Brasil? 

Não faz! Haha! É sinistro, na real, às vezes tem que se prostituir pra fazer o bagulho. O jeito é arrumar outra forma, pode ser até no meio da arte, para ganhar dinheiro. Ser assistente, montar exposição, trampar em galeria de arte… Mas se você quiser investir nisso, é bem sinistro.

A galera não enxerga arte como algo que importa. A galera quer consumir arte, mas não quer pagar. A alternativa é fazer o que gosta, mas por outros meios. Se rolar de vender seu trampo, legal. Se não, valeu também. 

Foto de @vcards

Confira o que o Raynan faz no @sanxcallig

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