Temas de skate para o seu trabalho acadêmico

O skate acadêmico é uma das diversas áreas que o skate pode explorar e ser explorado. Se você nos acompanha, sabe que levamos o SKATE É SÓ UM PRETEXTO bem a sério, então nada melhor que extrapolar os limites de onde podemos chegar e falar um pouco mais de skate sem, necessariamente, estar em cima dele.

Trabalhos acadêmicos relacionados ao skate são caminhos que todo(a) skatista que cursa algum curso superior pensa em seguir, mas geralmente esbarra em algumas questões. 

A primeira é a falta de incentivo por parte de colegas e professores das universidades. Pelo skate ser uma atividade urbana e praticada por grupos sociais mais fechados, é mais comum que haja uma certa aversão acadêmica para esse tipo de tema. Porém, ao mesmo tempo que é algo que possa ser difícil aos colegas e professores na faculdade, é um campo pouco explorado de formas plurais, portanto, com muitas possibilidades.

Conversando com Léo Brandão no nosso podcast, vimos que antes mesmo de ingressar em um curso superior, é interessante que o aluno ou a aluna pesquisem as instituições de ensino, a fim de observar se há algum profissional que seja relacionado a área de pesquisa que esse estudante quer adentrar. 

A segunda, é a falta de referência, acadêmicas ou não, de pesquisas relevantes que são fontes para embasar os trabalhos acadêmicos. Aqui no Trocando Manobras a gente já deu dicas de livros e trabalhos acadêmicos de skate.

Por fim, o skatista que persiste, bate o pé e decide de fato fazer trabalhos acadêmicos, se vê, por muitas vezes, preso a temas mais rasos. Hoje aqui a gente quer te ajudar a abrir a mente. Decidiu fazer um trampo acadêmico de skate? Então vem com a gente que a gente pode te dar caminhos diferentes! 

Chamamos 3 profissionais de áreas diferentes do conhecimento: Leo Brandão, na área de história; Giancarlo Machado, em antropologia e Alberto Santos, em psicologia. Eles, junto do Trocando Manobras, vão te ajudar a expandir seus temas relacionados ao skate. 

Vamo lá: 

ANTROPOLOGIA:

Giancarlo Machado: Doutor em Antropologia Social pela USP. Docente do Departamento de Ciências Sociais da Unimontes

Há múltiplas possibilidades de pesquisas em relação ao universo do skate. É algo aberto, infinito, que pode ser feito a partir de diferentes áreas do conhecimento.

Em relação às Ciências Humanas e Sociais, onde tenho maior atuação, há lacunas a serem preenchidas. Elenco abaixo algumas delas:

– A questão racial, de gênero e sexualidade no skate. Há aquele mantra de que os skatistas fazem parte de uma família, que é todo mundo unido, etc. Mas isto é uma falácia. Há muitas tensões, preconceitos e intolerâncias neste universo. Há determinados perfis de skatistas que foram preteridos ao longo da história, não tiveram tanto espaço quanto a outros (ainda que fossem detentores de habilidades técnicas). Então é preciso resgatar estas vozes e personagens negligenciados para recontar outras histórias do skate. É fundamental considerar o protagonismo dos negros, das mulheres, LGBTQIA+ etc.

– A questão musical. Ainda falta uma pesquisa de maior envergadura relacionada à articulação do skate com outros universos musicais, sobretudo o rap. Sobre punk existem algumas investigações, mas sobre rap quase nada. E a década de 90 nos mostra que esta relação foi bem próxima (o que se revela no estilo de roupa, na corporalidade, na técnica das manobras, na relação com a cidade, dente outras experiências).

– Extrapolar o eixo Rio/SP. A maioria das pesquisas é realizada neste eixo. Faz-se necessário compreender a dinâmica do skate em demais regiões, e não apenas nas capitais do Estados, mas também no interior. Cada local tem suas próprias cenas repletas de significados e disputas.

– Os old schools. É importante levar em conta a questão geracional. Skate sempre é visto como uma prática juvenil. Mas e os praticantes mais velhos que andam de skate? O que está em jogo?

– A profissionalização do skate. Falta uma pesquisa de cunho sociológico sobre o processo de profissionalização do skate no Brasil. Um diagnóstico profundo sobre como o skate como trabalho. Ademais, ainda é um mistério a questão da remuneração/salário dos skatistas. Este sigilo simplesmente reforça a exploração por parte de certas marcas/patrões/corporações. Skatistas profissionais precisam compartilhar o valor de seus ganhos para ajudar a reduzir as assimetrias, a ter um padrão.

– Skate na periferia. É algo diferente do que se passa nos centros, ainda que tenha uma certa relação. Mas a cena periférica, os limites e desafios, precisam ser compreendidos com mais rigor. Enquanto em áreas mais abastadas prevalece um perfil de praticante que trata o skate como for fun, na periferia tem muito praticante que leva a sério as suas possibilidades como meio de garantir a sobrevivência. Contudo, é paradoxal, pois o mercado parece ter preconceito de classe, e favorece justamente quem não depende do skate como fonte de renda. Portanto, é algo para problematizar.

HISTÓRIA:

Prof. Dr. Leonardo Brandão (Universidade Regional de Blumenau – FURB)

Na área de História o caminho a ser explorado é imenso. As minhas pesquisas se basearam, sobretudo, nos impressos (revistas de skate), fato este que me levou a escrever mais sobre a história do skate em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. Só muito recentemente consegui produzir e publicar um artigo sobre a história do skate no Mato Grosso do Sul, tomando como referência a sua capital, Campo Grande. Entretanto, existem muitas outras cidades, estados ou regiões que ainda carecem de estudos. Uma pesquisa sobre a história do desenvolvimento do skate em cidades como Brasília, Curitiba, Porto Alegre, Vitória ou Belo Horizonte, por exemplo, seriam todas bem-vindas! Fora elas, estudos sobre o desenvolvimento do skate em lugares como o Acre (que nos últimos anos vem contando com uma multiplicação de pistas de skate em sua capital, Rio Branco) ou nos vários estados que compõem o Nordeste, por exemplo, são praticamente inexistentes. O fato é que há toda uma história do skate no Brasil, para além do eixo Rio-São Paulo, que carece de investigação, pesquisa, organização de documentos, realização de entrevistas, etc.

Além dessa necessidade, portanto, de pesquisas mais regionalizadas sobre a história do skate, um segundo ponto que chamo a atenção é para a utilização de outros formatos de documentação. A ausência, por exemplo, da utilização de filmes e documentários sobre skate nas pesquisas é um dado que chama a atenção. O cinema, ligado ao skate, ainda não foi pesquisado a contento (salvo pequenas utilizações em alguns trabalhos), sendo que o material filmográfico é muito rico e hoje, com a Internet, vídeos antigos (produzidos inicialmente no formato VHS) foram digitalizados e podem ser encontrados sem maiores dificuldades. Neste sentido, o Rodrigo do 55VM vem fazendo um trabalho primoroso em digitalizar e disponibilizar trechos de antigos filmes do skate nacional.

Por fim, é necessário que as novas pesquisas avancem para outras modalidades para além do street, o qual vem sendo geralmente o único foco dos estudos. É preciso escrever também sobre o skate vertical (Half-Pipe, Bowl e Banks) e também sobre o downhill (skate de ladeira), pois ambas modalidades foram e ainda são super importantes no Brasil. Por fim, é importante saber que o universo do skate é complexo, multifacetado e os temas que podem ser pesquisados ainda são diversos.  Existe um longo e promissor caminho a ser percorrido por quem deseja pesquisar skate na Universidade.

PSICOLOGIA:

Alberto Santos – Psicólogo do Esporte e Mestre em Psicologia. PUC-SP – Psicologia Radical

Os estudos em psicologia e skate ainda são escassos. Pelo que pude perceber, os primeiros estudos eram voltados para entender essa “tribo urbana” e geralmente eram feitos por pessoas de fora do skate. Não que isso seja ruim, para fazer pesquisa precisamos de material para servir de ponto de partida e se há alguns estudos, isso é ótimo. 

Além disso, a princípio, lembrando que os estudos foram feitos por pessoas de fora do skate, então respondiam algumas coisas para quem era leigo no skate, mas para o skatista não era tanta novidade. Por exemplo, estudos sobre o porquê o skatista anda de skate é um exemplo disso.

Quando skatistas acadêmicos passaram a conduzir estudos, foi quando parte da comunidade skatista passou a olhar essas pesquisas com outros olhos, pois traziam explicações além do senso comum.

Há bastante campo para explorar entre skate e psicologia. Skate rua, skate esporte, skate filosofia de vida, skate identidade, skate e saúde são alguns exemplos de grandes áreas que podem ser exploradas. Onde há pessoas, há espaço para pesquisas em psicologia e o skate não acontece sem a pessoa skatista. 

Além disso, há esses grandes temas, mas cada região, cada localidade tem um skate que é influenciado por condições específicas daquele lugar e aqui mora o grande desafio, criatividade para delinear perguntas claras sobre o que cada pesquisa pretende responder dentro deste recorte escolhido.

O ponto complicado disso tudo é que o skate é muito variado e com diversas dimensões que se cruzam a todo momento, com isso fica trabalhoso – mas não impossível, construir um bom método de pesquisa.

COMUNICAÇÃO:

Filipe Maia (sim, eu mesmo aqui do Trocando Manobras), jornalista pós-graduado em Jornalismo Cultural pela FIAM-FAAM

Assim como nas outras áreas, existem vários temas a serem exploradores pelo(a) pesquisador(a) de skate por ser uma área onde o conhecimento acadêmico tem começado a adentrar há pouco tempo. Na comunicação não é diferente e vou te dar quatro exemplos de temas que podem ser aprofundados.

Mas antes, uma dica mais geral pra quem está pensando em fazer trabalhos acadêmicos de skate: FAÇA! Aproveite que as pessoas que você pode entrevistar ou consultar estão vivas e lúcidas e ajude-as a contar suas histórias de forma acadêmica também. 

Vamos aos temas que separei em comunicação: 

Grito da Rua: o programa do Badeco, famoso no final dos anos 80 e começo dos anos 90 foi um dos maiores marcos do skate brasileiro em TV aberto, senão o maior deles. Contar a história do programa, aproveitando que o Badeco ainda está vivo e consciente, pode ser uma ótima pauta de estudo acadêmico. Além dessa parte histórica, também pode ser abordado o fator social e de influência que esse programa exerceu nos skatistas brasileiros da época.

Videogames: o quanto os jogos de videogame de skate dos anos 90 e 2000, principalmente a saga Tony Hawk, influenciaram e influenciam skatistas até hoje. Os jogos traziam toda a parte cultural do skate de uma forma muito bem trabalhada: tinham bandas e músicas que tocavam nos eventos de skate, picos reais, manobras de verdade, vestimentas e vídeos. Pensar e tratar de como essa foi o primeiro contato de muita gente com skate pode ser algo interessante academicamente também. 

Estudo mais aprofundado das revistas de skate brasileiras, tendo como foco sua linha de atuação e as diferenças entre elas. O skate no Brasil tem mercado próprio e, portanto e consequentemente, mídias próprias. Estudar como eram essas revistas e como elas se mantêm, ou não, vivas em épocas de redes sociais pode ser um estudo que dá uma luz à diversas questões de comunicação que essas próprias empresas enfrentam. 

Um estudo no marketing de empresas de skate, principalmente nos anos 80, 90 e começo dos 2000. Como, onde e quando essas empresas anunciavam e quais eram os tipos de anúncio. Catalogar anúncios, entender suas origens e seus porquês e analisar se foram ou não importantes para a disseminação do skate no Brasil. 

Mulheres na comunicação de skate do Brasil: a gente sempre teve mulheres muito importantes no jornalismo e marketing de skate por aqui e seria muito legal e importante contar essas histórias academicamente, aproveitando a lucidez e disponibilidade das pessoas que viveram e fizeram essa história. 

Releia o artigo do Trocando sobre Skate Acadêmico e impulsione sua pesquisa!

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