O efeito Rayssa Leal

Dia 26 de junho foi um dia histórico pro skate mundial. A segunda competição skatística da história das Olimpíadas via um pódio formado por 3 garotas bem jovens que competiram em altíssimo nível, mas o destaque ficou para uma em especial.

A maranhense de 13 anos Rayssa Leal roubou a cena, levou pra casa a prata no skate street feminino olímpico e ganhou o coração do mundo todo. Carismática e sorridente, a “fadinha” é o retrato de um skate em crescimento como esporte e é a heroína mais jovem em 85 anos de competição a ganhar um prêmio olímpico. 

O segundo lugar da Rayssa teve sabor de primeiro e trouxe aos brasileiros um novo olhar para o skate, influenciando mais que a prata de Kelvin Hoefler no masculino e a gente te explica o porquê. 

O impacto que tem uma criança de 13 anos ganhar uma medalha olímpica em uma atividade que não é somente um esporte (mas que nas Olimpíadas tem esse caráter) traz à tona uma discussão latente sobre a descriminalização do skate. Contextualizando historicamente (e brevemente), o skate no Brasil passou por diversos períodos de repressão, sendo o mais famoso dele no fim dos anos 80 quando Jânio Quadros proibiu a prática do carrinho na cidade de São Paulo. Essa proibição só teve fim no mandato seguinte, de Erundina, prefeita da cidade no começo dos anos 90. 

Porém aos olhos da sociedade não-skatista, o skate sempre foi ligado à marginalidade, ao consumo de drogas e à vadiagem, sendo proibido por pais e mães e tendo olhares tortos para seu uso citadino. 

Não se engane: o skate tem sim todas as características acima, mas não só elas. Por ser subjetivo e pessoal, o skateboard pode ter as mais variadas finalidades e usos, sendo interpretado por qualquer um que se dispõe a aprender a difícil tarefa de se equilibrar e dar umas manobras no shape, truck e rodinhas. Essa pessoa então reinterpreta seu caminho à sua maneira, fazendo do skate o que bem entender. 

Mas antes dessas Olimpíadas, o skate nunca teve um patamar de prestígio esportivo tão alto. As Olimpíadas, diferente de um Street League da vida, que é voltado para o público de skate e atinge a poucos curiosos, chega para todo mundo em todo canto do planeta e traz o patriotismo e a afinidade à esportes que ninguém nunca deu a mínima.

Afinal, você torce pra esgrima brasileira da mesma forma que torce para o tae-kwon-do e o futebol, porque dane-se o resto, a gente quer ver o Brasil campeão independente da modalidade! 

Mas o skate, por ter seu brilho jovem no olhar e seu fator “fazedor de meme” altamente aplicável, ganhou destaque, principalmente por ter Rayssa Leal como chance de medalha. 

Foto: CBSK / Julio Detefon

Sobre a Rayssa

A “fadinha” ganhou o Brasil anos atrás com um vídeo dando um heelflip em uma escada no Maranhão, vestida exatamente de fada. O viral invadiu a internet, os veículos de comunicação de massa e Rayssa começou a ter uma atenção diferente por ser uma garota de pouca idade e de tanto carisma andando de skate. 

Mas quem pensa que foi um fenômeno de estação, está enganado. Rayssa continuou andando de skate, ganhou a atenção de ídolos como Tony Hawk, entrou para algumas marcas grandes tipo Nike e April Skateboards e só continuou a evoluir seu skate técnico e pistoleiro (essa é a gíria que a gente do skate usa para quem anda bastante em pistas de skate, ok? A Rayssa é uma pistoleira nata!) 

O sucesso da Rayssa também foi no skate core, porque ela não era simplesmente uma criança fofinha que andava de skate. Ela sempre andou MUITO e dá manobras MUITO cabreiras. Então ela é tipo o Norvana, sabe? A banda que une todas as tribos? 

De fato a carreira de skatista da Rayssa até agora não é tão core e nem tão rua quanto de outras mulheres do skate que vieram antes dela, ou que estavam correndo as Olimpíadas como a Alexis Sablone. A Rayssa teve seu foco em pistas e competições e faz seu nome assim. No skate sempre teve isso e pessoas como Rodil Ferrugem, Greg Lutzka e Leticia Bufoni são provas de que dá pra fazer uma carreira mais focada em competições e tá tudo bem. 

Por falar em Leticia Bufoni, essa, também concorrente olímpica, sempre foi a inspiração declarada da Rayssa Leal e sempre esteve presente de diversas formas na evolução da fadinha, seja dando puxões de orelha que ensinam ou incentivando manobras mais e mais cabreiras. 

Então a Rayssa estar no segundo lugar das Olimpíadas aos 13 anos não é por acaso e não é uma construção de um dia pro outro. A família foi extremamente importante não só por apoiar, mas por também entender que o skate era algo imenso pra ela e que ela tinha não só que andar, mas principalmente, se divertir ao fazer isso. (Um salve GIGANTESCO pra dona Lilian Leal, mãe da fadinha). 

Vimos em Tóquio uma fadinha dançante, sorridente e chamando Tony Hawk de Toninho com toda a fofura e inocência de uma criança. Dahora demais ver que essa fagulha da diversão está nela e que isso a ajudou a ficar tranquila pra atingir seu objetivo! 

Foto: CBSK / Julio Detefon

Sobre o impacto da Rayssa Leal no pós-Olímpico 

Se estar nas Olimpíadas sendo a pessoa mais jovem há mais de 80 anos já não é fazer história o suficiente, Rayssa mostrou que entrar pros registros é possível quando se tem talento. 

Pela primeira vez o skate foi visto em uma Olimpíadas e o Brasil parou para ver as competições de street desse final de semana. Mas mais que torcer para todos skatistas, a gente queria mesmo era ver a Rayssa. Por se tratar de uma criança hiper carismática, educada e genuinamente feliz, nosso foco não foi Leticias ou Felipes da vida, mas sim a maranhense de 13 anos que chamava atenção até de quem nunca gostou de skate. 

O Kelvin que nos desculpe, o judô que nos desculpe, mas nenhuma medalha esse final de semana pesou tanto quanto a da Rayssa. O impacto desse feito é tão gigantesco que o skate ganha agora olhares de quem nunca olhou para a atividade e, com certeza, novos adeptos e, principalmente, novas adeptas. 

Rayssa Leal provou que é possível ganhar o mundo andando de skate e que o skate pode levar qualquer um ou uma pra onde se deseja ir. Não podemos deixar de dizer que é sim um olhar totalmente esportivizado pro skate que, reforçamos que, é subjetivo e tem vários jeitos de se olhar para ele e de praticá-lo. 

O impacto é muito maior para o lado competitivo do que para o lado de lifestyle e cultura de skate. As pessoas vão olhar mais para o skate? Sim. Vão olhar para a história do skate e para sua cultura? Talvez não. 

O que pode acontecer 

Rayssa Leal fez o Brasil olhar para o skate e esse olhar não veio só da comunidade skatística. Então a gente vai listar agora uma série de coisas boas e ruins que podem acontecer com esse momento pós-medalha-da-Rayssa:

  • Mais pais e mães podem influenciar seus filhos a andarem de skate. Historinha rápida: apesar de eu, Filipe, que escrevo esse texto, viver de skate, o apoio foi pouco aqui em casa, chegando a ter meu pai falando para fazer uma peneira de futebol aos 20 e poucos anos quando eu já escrevia sobre skate em uma revista. O que quero dizer com isso é que a gente que é mais velho não tinha o skate esportístico para mostrar para os pais e falar “olha, isso aqui é legal e dá dinheiro”. 

Talvez os pais mais modernos vão poder incentivar mais seus filhos e filhas a andarem de skate e isso é legal. Quem sabe com apoio dentro de casa eu não estaria nas Olimpíadas? Vai saber! (hahaha)

  • Mais marcas vão olhar para o skate feminino. E não só marca de skate, como QUALQUER marca. Essa visibilidade pode trazer o olhar empresário para a coisa, mas a que custo? Será que as marcas estão preparadas para entender o dia a dia de uma skatista? Será que se a menina que elas apoiarem não quiser correr campeonatos eles vão continuar apoiando? Será que vai haver respeito com a skatista? Perguntas que vamos ter a resposta em um futuro próximo e esperamos que seja positiva!  
  • Mais meninas vão querer viver de skate em várias áreas do conhecimento. Essa referência da Rayssa pode fazer com que meninas queiram ser jornalistas, fotógrafas, designers, enfim, tudo atrelado ao skate! É importante que mulheres estejam também no mercado, fazendo e trabalhando em marcas e mídias e fazendo o skate ser ainda mais plural não só dentro das pistas. 
  • Maior marginalização do skate de rua e isso pode rolar porque na real a galera não tá pronta pra aceitar o skate que faz barulho, que suja, que é anárquico e dono da cidade. O skate que vai passar na Globo é o que traz medalha, não o que convive com moradores de rua e usuários de droga no centro da cidade pra acertar uma manobra naquela escada da Sé. Então os skatistas podem ser cada vez mais postos em cerquinhas de pistas porque “ali é onde eles pertencem”, segundo o olhar esportivo da coisa. Afinal, o Brasil ganhou medalha, por que você não tá nas Olimpíadas também, skatista? 
  • As pessoas podem ir atrás da história do skate feminino no Brasil e esse fato é bastante atrelado a um post da Rayssa após sua vitória. No insta dela, a frase “não existe futuro sem passado” não diz somente à sua história, mas sim da história de várias guerreiras que andaram e andam de skate em solo brasileiro. Talvez isso influencie a mídias e pessoas a irem atrás e contarem e espalharem a história do skate feminino por aqui. 

O que aconteceu e vai acontecer

Beleza, se acima você tem as previsões, abaixo você vai ver o que realmente já aconteceu e vai acontecer no THE RAYSSA LEAL EFFECT (em inglês fica bonitão, né? haha):

  • Mídia de massa e torcida brasileira torcendo pelo erro alheio. É, gente, quando a gente vai andar, nem no campeonato a gente torce pelo erro do amiguinho, tá bom? A gente sabe que é muito bacana que o Brasil esteja num lugar no pódio, mas fazer isso torcendo pelo erro do outro é totalmente fora do skate. Por essas e outras que a gente fala que o esporte precisa mais do skate do que o skate do esporte: esse fator de coletividade e de respeito que o skate tem (até hoje, por enquanto) precisa ser visto em mais esportes. 

Esse aspecto mais “comentarista” que a internet ganha em competições como as Olimpíadas é super normal em qualquer esporte e no skate não ia ser diferente. Foi comum então ver gente achando que o 540 flip rock de front do Angelo Caro valeu mais que o nollie 270 nose do Yuto. O efeito plástico do skate realmente se faz presente, mas os especialistas que nunca subiram no skate estiveram por toda parte, assim como é com nós skatistas vendo outros esportes e falando mal do atleta quando ele errou (não sejamos hipócritas também).

  • Mais gente já foi andar de skate. Às 8 da manhã já tinha foto da pista de skate lotada na minha cidade. Era homem, mulher, criança, vó, vô, todo mundo! 
  • Muita gente vai querer andar, mas muita gente vai desencanar também porque o skate é difícil pra caralho, na real. Tem que ser meio masoquista e paciente pra caramba pra ficar ali tentando aprender cada etapa do processo e, quando você acha que aprendeu tudo, não aprendeu nada e ainda tem mais mil manobras para você aprender. Então muita gente vai achar muito legal andar de skate, mas esse bichinho vai parar de morder rápido porque é natural desencanar de algo tão difícil.
  • As marcas de fora não estão preparadas para entender o skate, então quando a gente ver que daqui algum tempo a marca parou de patrocinar fulana ou cicrano porque eles querem passar mais tempo no Vale do Anhangabaú do que na pista, não se surpreenda. As marcas vão sugar e vão desencanar também, porque além de ser difícil andar de skate, é difícil lidar com skatista. 
  • Mais meninas vão se sentir seguras e confiantes para andarem de skate e isso aqui é o melhor efeito da medalha da Rayssa. Essa representatividade jovem e feminina mostra que é possível e que o skate é para mulheres, sim! Então mais e mais garotas vão fazer suas crews e vão pra pista e pros picos! 

A prata da Rayssa não serviu só pra botar o nome dela na história dos esportes. Serviu para mudar o skate no Brasil e fazer com que mais pessoas se voltassem pra nossa prática cotidiana. Se vai ter mais gente apaixonada por skate, se vamos ganhar mais dinheiro ou se o skate vai crescer de fato, só o tempo dirá. 

O que temos agora é uma semideusa do Olimpo, brasileira de 13 anos, chamada Rayssa Leal influenciando os tempos que irão chegar.

F/S Feeble Foto: CBSK / Julio Detefon

  1. Perfeito, Felipe! Tenho aprendido muito com você e o TM e acho que precisamos falar mais sobre determinados assuntos sobre o universo do skate e, falar da Rayssa hoje é inevitável e super importante, para que possamos estar conscientes e consequentemente, preparados para o que esta por vir.

    Enfim, obrigado pela matéria e vamos pra frente! Abração da Velharia Skateboard e toda galera do RJ!

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