O desrespeito do desespecializado

28/11/2012

      Eu tenho falado muito aqui no trocando manobras sobre a popularização do skate e diversos aspectos que seguem esse fenômeno. Hoje eu vou tratar de um assunto chato e que pode ser indigesto pros habituais leitores deste blog. Peço-lhes desculpa por essa abordagem, mas o meu entendimento como futuro jornalista não pode deixar essa questão em branco. Vou falar sobre o desrespeito de grandes veículos de comunicação quando o assunto é skate.

      Vou citar aqui três reportagens:  “Skatistas e moradores debatem o uso da Praça Roosevelt” da Folha de S.Paulo do dia 07/10/2012 da jornalista Renata Miranda; “Paulistanos usam skate como meio de transporte” do Jornal Agora do dia 21/10/2012 e, por fim a reportagem “O skate agora é feminino” da revista Veja, do dia 28/11/2012, da jornalista Dolores Orosco.

      Todas as reportagens têm aspectos depreciativos do skate e tratam nosso esporte com preconceito, desinteresse e, principalmente, falta de conhecimento de fatos. Para mim, são exemplos de como o jornalismo não deve ser feito e como a especialização é, por muitas vezes, necessária, o que nos leva ao debate do diploma no jornalismo, mas não entrarei nesse aspecto aqui.

      A reportagem da Folha de S.Paulo, para mim, é a que tem menos problemas. Ela apresenta fontes confiáveis, como Thomas Losada e Fábio Bitão e vê também o lado dos que são contra o skate ali na Praça Roosevelt. Porém, a adjetivação de certos termos e o mal uso de aspas dão aos skatistas características, um tanto quanto, ruins. “Arriscadas manobras” e o mal uso da frase do skatistas Luis Fernando Tavares são exemplos do uso não pensado de certos termos, prejudicando, assim, o lado do skate.

      A seguir, a reportagem do Jornal Agora pega de embalo a popularização do carrinho e penetra o ambiente do skate de uma forma leiga e medrosa. Primeiro, quero afirmar aqui que, antes dessa onda nova do skate, a mídia não queria nem saber de nós. Não, minto, queria, queria saber quando o Mineirinho ou o Bob ganhavam um título de campeão mundial em campeonatos organizados pela rede Globo de televisão. Então já da para entender que estão entrando em um ambiente totalmente desconhecido e estão fazendo isso errado.

      O fato do skate ser um meio de transporte não é uma coisa nova. Para nós, que sempre andamos, o skate foi sempre nosso leva e traz. Aí, na reportagem, usam pessoas X para darem opiniões sobre o uso do skate como transporte. Desculpem-me, mas não são reais skatistas, ou, pelo menos, o que estamos acostumados a pensar quem um skatista de verdade é.

      Quero abrir um parênteses aqui para dizer que O CRESCIMENTO DO SKATE NÃO É ALGO RUIM. Muito pelo contrário, é ótimo, nos traz mais espaços para andar e um olhar diferenciado das autoridades sobre nossas condições. Mas, como esse crescimento está sendo mostrado é o que me preocupa.

      Ainda na reportagem do Jornal Agora, eles citam “regras” de utilização do skate. Regras? Pra você, skatista de verdade, existe regras para andar de skate? Entre uma delas, a regra diz que o skate deve ser conduzido pela borda direita da via, segundo especialistas. Que especialistas são esses? Goofys? Porque eu sou regular, ando com o pé direito atrás e, para mim, é melhor andar do lado esquerdo da via, pois assim posso ver os carros com maior facilidade. Então, para mim essa regra não funciona. Outra dica é que o esporte deve ser praticado em local seguro. Bom, se entendessem a complexidade do esporte, entenderiam que qualquer lugar é lugar para se andar de skate. Na reportagem, ainda, entrevistam Sandro Dias e ele fala uma coisa que, para mim, é errada. Ele diz que “com a reforma da praça Roosevelt, houve uma migração para o centro  (…)”. Desculpe Mineirinho, mas você não pode afirmar isso. O centro sempre foi local preferido dos skatistas de rua, tem o Vale do Anhagabaú, a Praça da Sé, Pátio do Colégio, entre outros. Você, como skatista vertical, talvez não enxergou isso e deixou-se levar pela onda da mídia. Mas, também, não posso deixar de esquecer que, talvez, o uso das aspas aqui foi errado, novamente, é uma possibilidade.

      Para terminar, cito a matéria de três páginas sobre meninas no skate da última edição da revista Veja. Na linha fina, já começa a falação de merda: “Andar em cima da prancha com rodinhas, deixou de ser território 100% masculino e de GENTE DESMAZELADA. As meninas desfilam de roupas bem justinhas e maquiadas”. Viu? Fomos chamados de desmazelados, que, pra quem não sabe, significa desleixado, descuidado. Bom, se somos desmazelados, como nosso estilo é hoje referência para a moda jovem? Somos copiados desde os tênis até aos bonés, então, todos hoje são desmazelados? Boa adjetivação, dona Dolores, talvez sua filha hoje seja uma desmazelada, também.

      Não vou nem citar as meninas que tem foto na matéria, porque, além da pose ridícula, são provedoras de frases absurdas como “Imagina eu me arrumo toda, vou andar de skate na praia, para azarar e o capacete esconde o meu rosto? Quebra todo o clima”. A reportagem ainda conta com um “guia de como se vestir para andar de skate” e mostra uma foto de uma menina vestida de biquíni e roupas curtas. Mais uma vez, a complexidade do esporte não foi levada em consideração e, imagine a Leticia Bufoni descendo corrimãos de biquíni, não ia rolar.

      Sei que essas reportagens são leigas e superficiais, mas sinto que há um desrespeito por parte desses veículos. Muito legal estarem falando do skate, mas não é legal a abordagem que dão. Para um esporte que não para de crescer e já é o segundo mais praticado no país, deveria haver um pouco mais de respeito e cuidado na hora de redigir reportagens.  O skate de verdade agradece.

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