Quando o jornalismo literário encontra a paixão moderna pela rua

14/03/2013

     Em 1908 surgiu um livro que trouxe amor a um tema tão cinza: as ruas. Era “A alma encantadora das ruas” de João do Rio. O livro dá cor ao concreto e sentimento às calçadas, humanizando os aspectos urbanos das cidades e lhes pondo em condições superiores de simples existência. As ruas tratadas eram as do Rio de Janeiro, mas podem, facilmente, serem ruas de qualquer cidade que viva por si só.

     João do Rio nasceu em 1881 e morreu em 1921. Nos seus 39 anos de vida, com certeza nem passara por sua cabeça a existência de um esporte que incorporaria todo seu pensamento de amor às ruas, como faz o skate. Ele não escreveu o livro pensando no skate, nessa época, skateboarding nem existia, mas, os sentimentos de amor às ruas são ainda atuais se analisarmos o contexto urbano em que o skate está inserido.

     Alguns trechos desse texto imprimem bem a imagem marginal (no sentido de estar à margem dos demais acontecimentos) do skatista e de como ele se infiltra e se adapta no ambiente urbano, amando seu local de trabalho preferido: a rua.

     “A rua é o aplauso dos medíocres, dos infelizes, dos miseráveis da arte. (…) A rua resume para o animal civilizado todo o conforto humano. (…) a rua criou o garoto!” são alguns exemplos da adjetivação romântica de João do Rio. Ele vai mais além e cita o “espírito vagabundo”, tão conhecido por nós, skatistas, de se sobressair no dia-a-dia. “Para compreender a psicologia das ruas não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e nervos com um perpétuo de desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos de flaneur e praticar o mais interessante dos esportes – a arte de flanar. É fatigante o exercício?”.

     Flanar, para o autor, é basicamente fazer o que nós skatistas fazemos nas ruas. “Flanar é ser vagabundo, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é sair por aí de manhã, de dia, a noite (…)”. Como ele mesmo diz, é perambular com inteligência.

     Pode-se comparar o flaneur de João do Rio com o skatista. Vivemos da rua, observamos e absorvemos tudo o que ela nos dá. Somos filhos do asfalto e irmãos das calçadas, pulando obstáculos da vida, sempre atentos aos acontecimentos ao nosso redor. Somos vagabundos com orgulho, como Fabio Cristiano mesmo já disse, somos “cidadãos que aproveitam muito bem a cidade”.

     João do Rio certamente não conheceu Fabio Cristiano, nem imaginou que este praticaria um esporte que envolveria uma madeira, dois eixos, quatro rodas e oito rolamentos. João era apenas mais um como nós, um amante da cidade, um fã da estrutura urbana. Ele pode nem ter pensado em skate, mas com certeza tinha a alma de um skatista.

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