Falando de música com a família Theobaldo

Os moleques adolescentes que andam de skate meio que se parecem. A maioria se veste quase da mesma forma, tem quase as mesmas influências e ouvem os mesmos sons. Mas se você olha de perto, sempre tem um que se destaca, um que é o diferente. Esse é o Davi Theobaldo, que enquanto seus amigos curtem rap e andam de skate de uma forma bem similar, ele busca suas influências na família, na música e na identidade punk. 

Mas pra gente falar de tudo isso, é preciso também saber de onde essa influência veio, do seu background. Então nada melhor que trocar ideia também com o pai do Davi, Marco Theobaldo (ou o DJ Alemão para os mais atentos) e falar de tudo isso! Se liga:

Davi, o que veio primeiro: o skate ou a música?

Davi Theobaldo: Vieram os dois ao mesmo tempo. Sempre teve skate dentro de casa e sempre teve música, meu pai sempre fez os dois paralelos. Ao mesmo tempo em que eu ficava em casa escutando um som, eu ia andar de skate e começou assim, com os dois juntos. Sempre foi muito relacionado os dois.

 

Você tem alguma lembrança da sua infância com música?

Davi: Lembro quando eu comecei a curtir rock, meu pai me mostrou um vinil do Led Zeppelin e falou “se você curte rock, tem que curtir isso aqui” e já lançou um classicão. Depois disso eu comecei a escutar muito os clássicos, mas com o tempo eu fui meio que tendo o meu gosto, tá ligado? Eu já não curto tanto esses clássicos que nem antes mas ainda escuto, acho muito louco e é uma parada que vou guardar pra sempre.

 

 

E qual o peso do seu pai nisso tudo?

 Davi: Meu pai é a minha maior influência, tanto de skate quanto de som. Ele meio que é a base de tudo pra mim. Até hoje a gente sai pra sessão, compra disco e volta mostrando a música que conheceu pro outro. A gente tem essa relação da música, skate e arte em geral.

 

O antes e depois e eles continuam ouvindo sons juntos! (foto: acervo pessoal) 

 

Marco, quando que você começou a sacar que o Davi curtia música?

Marco Theobaldo: Quando o Davi era pequeno, até tinha TV em casa ainda, que ficava ligada na TV Cultura pra ele ver os desenhos. Mas a música sempre foi presente em casa, o tempo todo.

Eu odeio televisão, não tenho uma faz muito tempo e o tempo todo que estou em casa, fico ouvindo música. Então quando o Davi era pequeno não era diferente. Ele começou a curtir muito pequenininho mesmo, com um ou dois anos ele já balançava o corpo com música. Eu colocava música pra ele dormir e ficava frisando pra ele os ritmos… Meio que uma coisa que meu pai fazia com a gente, a coisa da música vem do meu pai.

Quando eu nasci tinha uma bateria montada na sala de casa, meu pai é flautista, toca violão, tem disco gravado e ele meio que deu origem a todos os músicos na família, que não são poucos! Meus irmãos e todos os primos da parte de pai são caras praticamente todos conhecidos, tipo o Theo Werneck, Marcio Werneck, Marcelo Werneck, todos tiveram bandas dos anos 80 e 90 que foram importantes, o Edson X da banda Gueto e algumas outras bandas que meus irmãos tiveram etc.

O Davi nasceu com música em casa e já com dois anos e meio ele veio me perguntar se a Billie Holliday estava triste! Ou seja, ele já sacava o clima das músicas. Ele me pedia reggae para dormir ou um jazzinho, que sabia que jazz era uma coisa mais tranquila pra dormir… Então ele começou a sacar o clima das músicas, eu colocava Thaíde e DJ Hum e falava pra ele que era disco pra ele ouvir quieto sentado no sofá e ele ouvia!

Em casa tem de Luiz Gonzaga a Slayer, a Bob Marley, a Hermeto Pascoal, minha casa tem todos os ritmos. Então ele meio que assimilou que não tem essa de ritmo bom e ritmo ruim. Tem música boa e ruim! Eu sou um cara da música negra mas adoro uma guitarra distorcida… Então todos os ritmos fazem parte do nosso ambiente.

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“Com dois anos e meio ele veio me perguntar se a Billie Holliday estava triste”

 

O Davi falou que hoje em dia vocês trocam bastante ideia de som e ele te mostra coisas novas assim como você fez a vida toda dele. Tem algum som que o Davi te mostrou e você não conhecia mas hoje faz parte da sua playlist?

 Marco: A gente sempre ouve música junto, é uma rotina nossa. O Davi está sempre me apresentando coisas, principalmente na área de rock, coisa que ele está numa fase mais punk, que eu acho muito bacana, também tive a minha. Então as vezes ele me mostra coisa que eu já ouvi de nome mas nunca me aprofundei e a gente acaba ouvindo juntos.

O Davi também me mostra bastante coisa de música brasileira, vejo que ele gosta bastante de cantar. Ele até ganhou uma guitarra do meu irmão, Erico Theobaldo, que é produtor musical, vamos ver se ele engata!

Mas pra estar na minha playlist pessoal tem que estar nos meus discos aqui em casa. Eu não ouço música no MP3, não ouço música pra andar de skate… Ouço aqui na sala da minha casa com o meu toca-discos.

O que a gente ouve bastante nessa área do rock que ele puxa é Led Zeppelin, Jimi Hendrix e Black Sabbath. Quando a gente ouve música juntos, eu deixo ele livre pra puxar os discos que quer ouvir e ele acaba pondo alguns que rotineiramente eu não ouço, ouvia mais quando era mais jovem e já faz parte da gente, sabe? É legal quando ele fica de DJ quando a gente está junto!

 

Tem alguma banda favorita de pai e filho?

 Marco: Chico Buarque é um cara que o Davi gosta muito, sempre puxa pra ouvir e ele sabe todas as letras, acho incrível! Eu mesmo não tenho cabeça pra lembrar e acho muito lindo isso. Não que o Davi quer ser cantor, mas ele guarda as letras, presta atenção e ele puxa os assuntos das letras, é muito bacana isso. Chico é um cara que ele puxa bastante!

 

Davi, e essa história da guitarra? Você toca algum instrumento?

Davi: Não, mas tenho vontade! Eu acabei de ganhar uma guitarra do meu tio e vou começar a aprender! Já até pensei em ter banda mesmo sem tocar nada porque vejo uns amigos meus tocando e acho bem louco essa ideia de tocar e andar de skate, sabe? Já pensei nisso sim, só falta eu aprender a tocar. Eu vou aprender ainda!

 

 

Mas voltando pro carrinho, como que a música influencia no teu skate?

Davi: A música influencia em tudo na vida, no skate ela vai junto também. As vezes eu nem vejo muito vídeo de skate pra andar; coloco um vinil pra tocar e fico na pegada. Eu não escuto muito música quando to andando de skate, dependendo do pico. Geralmente eu escuto antes pra dar uma pilhada a mais.

 

O que você costuma a ouvir antes de ir pra sessão?

 Davi: Depende do dia. Se tem dia que estou mais de boa, relax, de bem com a vida (risos), coloco um reggae ou fico escutando MPB. Mas tem dias que estou mais pilhado, escutando uns sons mais paulera tipo Ratos de Porão.

É mais eclético, eu escuto música boa, que tem um sentimento na parada.

 

A identidade punk do Davi se estende para suas lixas e tênis (fotos: acervo pessoal)

 

Tem alguma videoparte que você lembra só por causa da música?

Davi: Várias! Uma que me marcou não é exatamente uma parte, é uma intro de vídeo: o Baker 3, que tem The Cramps. Esse som classicão deles já marcou muito pra mim porque sempre que eu ia andar de skate eu via esse vídeo e só de ver a abertura eu já me inspirava! Já escutava aquele som, aquela guitarra, via as imagens dos caras muito loucos e isso me inspirava pra ir andar.

Essa foi uma parte,que não é bem uma parte, que me marcou porque mostra a vivência deles e o lifestyle dos caras me inspira.

 

Teve banda que você conheceu só por causa dos vídeos?

Davi: Sim, várias. Essa por exemplo, o The Cramps, conheci por causa dos vídeos. Dead Kennedys também. Várias.

 

Seus amigos são mais do trap. Eles te zoam por você gostar de outras músicas?

 Davi: Ah, zoam, mas é bem na brincadeira. Tem alguns que levam mais a sério, falam que eu quero ser diferente, mas eles tem outra brisa, não conseguem enxergar da forma que eu enxergo.

Acho que o som influencia muito na maneira de pensar das pessoas então se a pessoa só acaba escutando essas músicas, ela vai ter outra visão, diferente da que eu tenho, sabe? Eu escuto outras letras, outros tipos de som. Na minha mente passa outra coisa, totalmente diferente. Cada um tem seu gosto, eu já não curto mas não fico em cima falando que é uma bosta. Eles sabem que eu acho uma bosta! (risos)

Da mesma forma que eles não me enchem o saco, eu também não encho o deles. As vezes eles me chamam de velho, mas isso nem me incomoda, acho até da hora!

Boina, camiseta de banda, anéis e pulseiras… Não é o kit típico de um moleque de 17 anos no skate (foto: TM)

 

Tem alguma música que já foi usada que você gostaria de usar na sua videoparte?

 Davi: Nossa, várias! Essa do The Cramps, por exemplo. Não vou lembrar agora todas exatamente. Teve uma do Marc Johnson, do Joy Division… Tem umas do David Bowie também. Ah, eu queria usar várias! Mas tem outras que eu sei que não usaram ainda que eu vou usar.

 

O que mais importa, ter uma música que gosta na parte ou uma música que combine com o estilo do skatista?

Davi: Depende. Se um cara vai fazer um trampo pra uma marca, ele tem meio que ver se vai ficar bom com a parte, se vai ficar da hora pra marca mostrar. Mas se eu vou fazer uma parada minha, vou fazer o som que eu quero. Se for uma parada independente, nem pensa, coloca o som que você quer!

 

Você acha que a música pode estragar ou melhorar uma vídeo parte?

Davi: Sim! Eu lembro de um vídeo da Blind que eu pulava uma parte porque eu não curtia o som. Era uma música do Rush que era mais um vozerão que eu nunca brisei no som e essa era uma parte que eu achei que a música estragava, por mais que eu curtia o rolê do cara. As vezes eu queria ver as tricks e abaixava o som.

Tem música que estraga a parte sim, mas o que importa é que a pessoa está andando de skate.

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“Se for uma parada independente, nem pensa, coloca o som que você quer!”

 

Pra completar, pedimos para o Davi montar uma playlist das músicas que ele mais ouve hoje em dia. Ouça agora:

 

 

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