TMTalk – Skate e Moda

Enfim, a última parte do meu TCC para a pós-graduação em Jornalismo Cultural: dessa vez, falei sobre a relação do skate e do mundo fashion.

Assista ao vídeo no canal e leia a na íntegra a parte abaixo:

 

Leia:

MODA – Cada skatista traz em sua vestimenta uma mensagem

 

Os skatistas sempre tiveram jeitos peculiares de se vestirem, seja por influência de outros mundos ou, até mesmo, por influência de outros skatistas. No livro de Giancarlo Machado, ele, curiosamente, fala do jeito dos skatistas se vestirem em um capítulo chamado Preferência Musical. Para ele, “alguns elementos específicos da vestimenta do skatista pode aproximá-lo ou distanciá-lo de outros; essa é a forma de marcar a diferença entre eles” (MACHADO, p. 67, 2014). Para Giancarlo, os skatistas compartilham gostos musicais e por consequência compartilham jeitos de se vestir e por consequência, se agrupam dentro de suas características e ideias: “(…) skatepunks, gangueiros e rastas são algumas das várias representações nativas que levam em conta as músicas ouvidas e roupas usadas”. (MACHADO, p.67, 2014).

 

Enquanto aqueles que preferem rap tendem a usar calças largas e folgadas, bonés abas retas e camisetas tamanho XXL (extra extra large), os que preferem rock geralmente usam calças e camisetas justas no corpo e tênis vulcanizados. (MACHADO, p.66, 2014)

 

Mas não é só da música que o skatista tira sua influência no modo de se vestir. Com a pluralização da atividade, os skatistas tem buscado referências dos mais diversos universos, como os de outros esportes e do próprio mundo da moda. De um lado, skatistas que preferem calças de agasalho da Nike com cortas-vento da Adidas e bonés que aderem o suor. Do outro, skatistas que usam calça de linho que mostram as meias, camisetas brancas e gel no cabelo.

 

No Brasil, um dos primeiros grupos que tiveram marca de roupa voltada para o skate foi a galera do Dirty Money, de 1992. No documentário de nome “DIRTY MONEY – A Geração do Skate”, que conta a história sobre a geração dos anos 90 que originou o vídeo com o mesmo nome do documentário, os participantes contam que fizeram roupas que davam a cara daquela geração: camisetas e calças gigantes. Presentes no documentário, Fabio Cristiano diz que “parecia uma melancia” e Alexandre Ribeiro afirma que “uma calça daquelas cabia quatro pessoas magras dentro”. Alê Vianna afirma que com aquelas roupas eles queriam “ser contracultura”. Robson Reco completa dizendo que (o jeito de se vestir) “foi uma coisa que ficou marcada na época”.

 

Até hoje existem as próprias marcas de skate que são só de roupas, como as brasileiras HIGH e Paviment Co., que levam a cultura do skate em suas peças sem nem fazerem peças de skate. Mas há também aquelas marcas que, em sua raiz, são de peças de skate (shapes, trucks e rodas), mas também fazem roupas. As marcas Polar Skate Co. e Palace Skateboards são exemplos disso, sendo usadas por skatistas e pessoas de fora do skate. É possível encontrar camisetas da Palace pelo preço de 600 euros.

 

Em conversa com Danilo Cardoso, dono da marca Paviment Company, ele nos disse que o skate e a moda andam lado a lado:

 

“Hoje em dia está muito mais complexo na minha visão. Hoje uma coisa parece que está dependendo da outra, parece que as coisas se amarraram. O skate que era uma coisa marginalizada, hoje é pop, todo mundo usa tênis de skate hoje em dia e algumas marcas de streetwear entraram no setor.

 

Pra mim, o skate bebe mais da moda do que a moda do skate porque por mais que o skate seja bastante praticado hoje em dia, não é todo mundo que pratica. Mas está muito conectado, a moda também sofre bastante influência do skate.

 

Hoje o mercado é muito mais dinâmico. A questão dos collabs hoje é muito mais presente. Mas a gente sempre tem que observar de onde estamos falando, se é dos EUA ou do Brasil. Hoje percebo que o brasileiro consome muito mais produto nacional, o perfil do brasileiro mudou porque as marcas brasileiras proporcionam mais qualidade aos consumidores. As marcas se preocupam muito mais com um trabalho bem feito.

 

Hoje a moda e o skate estão conversando muito. Com o Instagram e o Facebook está muito mais fácil chegar em um produto final que agrade todo mundo, falar com mais gente e com isso as pessoas vão consumindo mais”.

 

Como Danilo disse acima, existe também o fator das collabs, que são as colaborações de marcas de skate com marcas fora desse mundo. Para Danilo, “essa coisa da influência é muito forte. Por exemplo, se um skatista vê um ídolo usando Gucci, ele vai achar isso uma coisa legal, vai desmistificar o uso da roupa e se vê usando aquilo, sendo influenciado. Vejo que é bastante isso, por influência de quem usa e é do skate e como isso teve aceitação do público, as próprias marcas fashion começaram a se voltar pra esse mercado streetwear”.

 

 5.1 SUPREME

 

Um caso curioso de uma marca (originalmente) de skate que hoje é uma queridinha nos guarda-roupas fashion por todo o mundo é o da loja americana Supreme, fundada em 1994 por James Jebbia.  Hoje a marca da loja vale um bilhão de dólares (via Wall Street Journal) e faz parcerias com marcas fashion como Comme Des Garçons, de Rei Kawakubo ou OFF White, de Virgil Abloh. Segundo Cam Wolf, no artigo “Supreme agora vale 1 bilhão de dólares” para a revista GQ, o sucesso da marca se deve a “passar de uma marca streetwear que copiava gigantes como a Louis Vuitton para ser uma marca que colabora com a Louis Vuitton” (WOLF, GQ, 2017)

 

Mas apesar da marca hoje pertencer a esse mundo fashion e hype, a Supreme parece não esquecer suas raízes do skate. Ela ainda patrocina skatistas e os realça em suas coleções e lookbooks. O time de 2018 tem lendas como Mark Gonzales e Jason Dill e novos garotos como Ben Kadow e Genesis Evans.

 

 

Conclusão

 

Analisando todos esses aspectos culturais citados acima, que são intrínsecos à pratica cotidiana do skatista em uma grande cidade, é possível perceber que esses elementos conversam entre si, complementando uns aos outros. Por exemplo, o skatista que curte rap, usa certos tipos de roupa, assiste determinados filmes e vai a lugares que seu grupo frequenta, coisas que skatistas que curtem rock ou house music talvez não façam em suas rotinas, mas isso não significa que eles não possam conviver pacificamente no mesmo local.

 

Diante das conversas e da análise dos artigos e entrevistas presentes neste texto, foi possível perceber quanto o skate transformou a vida das pessoas que o praticam, fazendo com que suas vidas inteiras se baseassem no simples ato de andar de skate. Vimos músicos que conheceram a música que fazem através do skate; skatistas que começaram marcas de roupa para darem identidade visual ao seu lifestyle; representantes dos órgãos públicos moldando suas pautas em prol do skate nas cidades e diretores de cinema que buscaram seu seu background “skatístico” inspirações para seus filmes e produções que, nem sempre, tinham skate no meio.  O fato do skate ser tão plural e abraçar tantos elementos “irmãos” à pratica nos faz acreditar que, apesar de ser uma modalidade olímpica, andar de skate não é só um esporte: é também um jeito de se portar na sociedade e, consequentemente, um estilo de vida.

 

 

 

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