Mulheres da arte e do skate: conheça o Cafelinas

Um fenômeno recente e crescente no skate brasileiro é o aparecimento de vários grupos de skate voltados para atuação das mulheres no seu front. O skate, que teoricamente sempre foi democrático, tem visto essa real pluralização somente nos últimos anos, se tornando de fato um lugar onde diversos grupos se sintam confortáveis de pertencer. 

Esses grupos, além de serem um porto seguro para outsiders das crews masculinas hétero-normativas, têm tornado o skate mais atrativo para mais pessoas, fazendo dessa atividade uma mais coletiva. 

 Nessa onda, conhecemos hoje o Cafelinas, um grupo feminino de skate do ABC Paulista composto por diversas mulheres que trazem o skate e a arte para o DNA da crew. De fato o skate uniu, mas os laços vão além do ato de remar juntas. 

Batemos um papo com Carol Pisenti e com a Nathália Brito, duas das idealizadoras do grupo, para conhecer um pouco mais do Cafelinas. Se liga:

Trocando Manobras: Quando que vocês começaram a se identificar como uma crew e com esse nome “Cafelinas”?

Carol Pisenti: O Cafelinas já meio que existia, mas sem o nome de fato. Algumas se conheceram em 2014, outras mais pra frente… A gente se encontrava direto para andar de skate e, mesmo depois da pandemia, a gente ainda se encontra para andar e começamos a pensar em fazer um grupo que juntasse tudo o que a gente é. 

Na nossa crew tem artistas, artesãs, designers, professoras… A gente queria juntar tudo isso em uma página só e divulgar! As ideias foram surgindo depois nas reuniões e nome, inclusive, foi uma ideia da Rebeca (Carvalho)!

Nathalia Brito: Sim, verdade! Um belo dia a gente estava tentando chegar em uma conclusão de nome, era um brainstorm de vários nomes, mas muitos deles de palavras já existentes, coisas que lembravam a gente mas a gente não sentia que era aquilo de fato. 

O nome Cafelinas surgiu da energia da cafeína e de ser selvagem, porque o skate é algo bem selvagem! A gente foi juntando os pedacinhos e ficou nosso nome! 

Carol Pisenti: Nossa ideia é que “Cafelinas é uma substância altamente perigosa presente nos encontros selvagens de skate com as amigas”. O skate é livre, né? A gente tem muitas obrigações durante o dia como profissionais, como mulheres, como donas de casa etc. E quando a gente se encontra pra andar, a gente consegue ser o que realmente somos, sem se preocupar com o que vão achar! 

Tem toda essa parte de ser selvagem, da adrenalina que bate… E faz super sentido! 

No total somos: Rebeca e Talita Sobral, Rebeca Lomeu, Gabi Fagundes, Lua, Micha, Mayla, Nathi Tavares, Nath Brito, a Enya e eu! Nós temos também o intuito de preservar o localismo.

As Cafelinas!

TM: Todas são do ABC de São Paulo?

Carol: Sim, todas da região! 

TM: Sinto que o Cafelinas se tornou um lugar seguro para vocês serem vocês mesmas. E antes de vocês formarem esse grupo, como era o viver skatístico de vocês em grupos mistos, formados por homens e mulheres? Rolavam assédios, desrespeitos ou algo do tipo?

Carol: Isso depende muito do local que a gente vai. Isso está diminuindo na verdade. Os manos do skate estão começando a ter um olhar para isso e estão respeitando um pouco mais. 

Nas sessões femininas, antes mesmo do Cafelinas acontecer, já era um lugar seguro. Esse ponto de segurança já encontramos em outras crews de mulheres femininas em São Paulo. O Cafelinas é mais uma identidade, mas o respeito está melhorando aos poucos! 

Nath: Quando eu comecei a andar, tinha um pouco da ausência de crews só de meninas. No início eu tinha bastante vergonha de chegar em um lugar e sair andando. Aí aprendi a colocar o fone de ouvido e não parei nunca mais! 

De certa forma, ter minas na pista dá mais segurança de estar no lugar, sim! A vibe é outra quando tem bastante mina presente.

Carol: Falando de crew feminina, não tem como não lembrar de quem a gente se inspirou: Divas Skateras, super pioneiras. As Britneys, dando visibilidade pra várias minas, das periferias, negras, bissexuais etc. 

O Brasil ainda é um país inseguro para tudo o que é diferente. Mas ao mesmo tempo, ainda existem grupos que estão resistindo através da união, isso é muito importante. 

TM: Ouvindo vocês falarem sobre isso, me remete ao lado político do skate, não de partidos, mas social da coisa. Andar de skate e se organizar enquanto grupo, pra vocês é um ato político?

Nath e Carol: Com certeza! 

Carol: A gente vem de uma geração que não queria se envolver com política e isso acabou culminando na situação governamental que estamos hoje. Depois de 2018, as pessoas começaram a prestar mais atenção nisso e andar de skate tem cada vez mais sido um ato político e social.

Inclusive, vivemos uma experiência recentemente que fizemos uma conexão com outras tribos. Rolou o Brechó Help, que arrecadou verba para converter em cestas básicas para pessoas em situação de vulnerabilidade e nós participamos, nos juntamos para divulgar de várias formas, mostrando as roupas etc. Ou seja, geramos um ato político e social para combater a fome com outros grupos. 

Nath: Sim, a gente vai unindo forças! Pela questão também de ser um corre independente e de mina, é algo que considero extraordinário, essa questão de uma apoiar a outra e a gente ajudar pessoas de fora. 

Carol e Rebeca, foto da Gabriela Fagundes

TM: Entre vocês esse apoio não é só nas manobras, né? Vocês se ajudam fora do skate também.

Carol: Exato, nosso grupo não é só para a gente se apoiar no skate. Por exemplo, recentemente a Nath se mudou e nós a ajudamos, então vai além de só andar. A gente tenta ajudar na parte profissional, vocacional, é um corre coletivo, mesmo! 

Nath: A gente basicamente deu um nome para a nossa amizade! 

Carol: As duas fotógrafas, a Rebeca e a Gabi, estão evoluindo juntas por estarem mais próximas por causa do Cafelinas. Tem sido muito importante essa união! 

Lua Vidal e Gabriela Fagunes. Foto: Rebeca Carvalho

TM: Muito massa! E o que está por vir aí no Cafelinas?

Carol: Ah, tem bastante coisa legal! A gente procura fazer desafios, por exemplo propor para todas aprenderem uma manobra nova no mês e rolar uma premiação entre nós. Isso incentiva a gente e pode inspirar outras crews! 

Nath: Sim, pra puxar o nível! É muito bom, eu mesma me puxei e já aprendi algumas manobras novas recentemente. O skate é sobre fazer coisas que você nem imagina e agradecer por elas! 

TM: Para quem quer conhecer mais vocês, como faz?

Carol: Por enquanto, temos uma página no instagram, o @cafelinas. Temos alguns planejamentos, mas as coisas vão acontecendo. Vamo que vamo, nossa união é reflexo de muita coisa boa! 

Nath: É isso, as coisas vão fluindo, sentindo os ritmos e a gente vai fazendo as coisas acontecerem! 

Carol: Ah, quero agradecer as pessoas que dão oportunidades para a gente. O Galpão Skate e Cultura, a loja Love, o Brechó Help e agora vocês aqui dando esse espaço para a gente! 

Nath: Um salve gigante para todas as Cafelinas e todas as crews de minas que fazem acontecer! 

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