2010 a 2020 – skate verde, ativo e olímpico

Estamos começando o ano de 2020 e isso é mais do que um início de ciclo. Entrando nos anos 20 do século XXI, o skate está mais plural, mais múltiplo e, ao mesmo tempo, mais cíclico e com algumas características bem antigas ainda existentes.

Mas para tentar entender pra onde vai o skate nesse ano em que estrearemos nas Olimpíadas, vamos lembrar o que rolou nos últimos 10 anos pra chegarmos até aqui.

Aqui no Brasil, a década começava com o documentário Vida Sobre Rodas sendo lançado. Dirigido por Daniel Beccaro, o filme mostrava um pouco da história do skate nacional, passando por anos e entrevistando pessoas que foram fundamentais até então para a história local do skate.

As revistas brasileiras eram a Revista CemporcentoSKATE, a Tribo e a Vista e eram vários os canais brasileiros de skate que tentavam surfar na onda do Youtube, que estava começando a ganhar força com essa coisa de ser youtuber.

2010 foi o ano de uma tour da Vans com Jeff Grosso e companhia no Brasil e também do lançamento do Extremely Sorry da Flip, com Rodrigo TX e Luan de Oliveira no vídeo. O Rodrigo também apareceu no Give My Money Chico, da LRG, que tinha Adelmo Jr e Rodrigo Petersen no time.

Por falar em vídeo, 2010 foi o ano em que uma tal de Gravis lançou um tal de Dylan Rieder, que mudaria totalmente o jeito da galera se vestir nos anos 2000 no skate mundial.

No início da década, havia uma espécie de ode à VX1000 que nunca saíra de moda. A câmera resistia aos ventos do tempo, sendo usadas por marcas novas tipo Magenta e Polar e tendo seus dias de glória da década 10 dos anos 00.

Por falar em Magenta e Polar, essas talvez foram as marcas mais cultuadas da década. A Polar por seuhype artístico e time incrivelmente talentoso e a Magenta por ter “facilitado” o skate para muitos, tornando os no complys, mini-picos e wallrides legais de novo.

Foi uma década que libertou o skate de várias regras intrínsecas à atividade que chamamos de “sem regras”. Não só nas manobras, que agora permitem pés no chão e mãos no shape no street, mas na mentalidade quadrada de nós skatistas: hoje vemos muito mais a presença de mulheres andando de skate e lutando por seus direitos, desde que seja reivindicando premiações igualitárias nos campeonatos até fazendo seus próprios vídeos e exposições de skate.

A década também foi importante para que muitos homossexuais pudessem ser eles mesmos no skate mundial. Brian Anderson foi um dos mais marcantes, assumindo sua homossexualidade e deixando o caminho aberto para que muitos outros fizessem o mesmo.

Apesar de que nas sessões ainda vemos machismos e fobias de vários tipos, é notável a abertura de mentes que o skate do século XXI trouxe. Coletivos como as Britneys ou o Unity são importantíssimos para que o skate tome rumos mais plurais.

E se no começo da década os skatistas eram junkies e tinham os BakerBoys como inspiração para ficar muito louco e andar de skate no dia seguinte, o final dela mostrou um skate mais verde e mais saudável. Muitos skatistas mudaram seu lifestyle, se tornando veganos e vegetarianos ou parando de beber e de usar drogas.

Nos últimos 10 anos também vimos pessoas de fora do skate falando muito bem dele. Ian Mckaye (tá bom, esse não é tão fora do skate assim) e Jerry Seinfeld estão na lista, além de vários TED Talks com o skate em pauta.

Vimos também a multiplicação de picos nas cidades brasileiras, mas também demos adeus à alguns outros clássicos. Se o Paul Rodriguez não andou no Vale do Anhangabaú porque achou difícil, não vai andar mais porque esse já subiu.

Foi uma década de várias tours nacionais e internacionais, trazendo e levando skatistas para andarem nos mais variados destinos. Quem no começo da década diria que Salvador ou Goiânia se tornariam locais procurados por skatistas do mundo todo?

O Vans Park Series ganhou uma pista (que é grátis para andar, diga-se de passagem) e uma parada obrigatória em São Paulo. Essa também foi uma marca que marcou a década, lançando seu primeiro full-lenght em 2015.

Se antes já tinha Nike e Adidas, agora a New Balance também entra no jogo. A Puma também tentou fazer seu time no meio da década, mas feliz ou infelizmente não vingou. Mas a NB Numerics está tão bem que tem até o Tiago Lemos no time!

Por falar em Tiago Lemos, ele foi o brasileiro que mais se destacou no skate mundial nesses últimos dez anos. Passando pelas melhores equipes e fazendo videopartes incríveis, o Tiago puxou o nível pra cima e hoje tem uma fama que faz jus ao seu skate.

Ele também foi um dos responsáveis por tornar popular de novo o uso de tênis dos anos 90. A DC fez muita grana com a volta dos tênis do Josh Kalis ou dos DC Lynx, tão populares na Golden Era.

Mas apesar dessa volta de alguns aspectos dos anos 90 nas vestimentas, outras coisas parecem não ter resistido bem ao tempo. Até mesmo o Gary Rodgers da Thrasher já falou mal da VX1000 em um recente vídeo, provando que o HD tem ganhado espaço até pros mais core.

A gente viu também o surgimento de uma skatista que vai ainda conquistar muito. Rayssa Leal veio pra ficar e pra fazer história. Ela ainda tem apenas 11 anos, mas já ganhou um Street League e com certeza vamos falar dela na retrospectiva dos próximos 10 anos.

Mas pegando esse gancho da Rayssa, vimos também um skate diferente, mais voltado pra competições e medalhas. As Olimpíadas mudaram bastante o rumo dos jovens skatistas do mundo todo e muitos que participam de importantes campeonatos que levam pra caminhos olímpicos nem tem videopartes de rua ainda.

Esse fato acima soa um pouco estranho, mas não totalmente fora do que imaginaríamos quando começamos a ouvir o assunto do skate olímpico. Para aqueles que são competitivos, é um prato cheio. Para quem não é, tá tudo bem também.

Apesar do assunto Olimpíadas ter dividido o skate no final da década, a nossa entrada nos jogos olímpicos meio que apaziguou os ânimos. A gente entendeu que tem skate pra todo mundo: pra quem quer competir e pra quem quer andar na rua. Mas talvez o que a gente ainda não tenha entendido é que não tem (e isso não tem MESMO) dinheiro pra todo mundo.

Enquanto uns tem patrocínios com cotas e cheques gordos e justos, outros batalham diariamente por um lugar ao sol nas marcas gringas.

O skate nacional sofreu com as crises do meio da década e quem sobreviveu vê hoje um cenário esquisito perante ao boom do skate olímpico. Dá pra contar nos dedos a quantidade de marcas core existentes no Brasil e menor ainda é o número de marcas de skate que fazem trabalhos como vídeos e que tem times com pro models.

Leia o artigo do Trocando Manobras que questiona pra onde está indo esse dinheiro do skate nacional

Seja isso um pós-guerra de má administração por parte das empresas ou de uma mentalidade vira-lata nacional que sempre existiu, fato é que o cenário brasileiro do skate nesse 2020 não é tão animador: só a Revista CemporcentoSKATE ainda circula revistas impressas e skatistas como Murilo Romão, Marcello Gouvea e Mario Hermani tem que fazer suas próprias marcas para terem shape pra andar.

Se o começo da década trazia dinheiro e bastante portas abertas para os skatistas brasileiros, o fim dela traz um cenário estranho e bastante “faça você mesmo” para quem quer ainda fazer acontecer do skate.

Isso tudo é reflexo de acontecimentos de fora do skate e isso a gente não tem como negar. Em um país que se mostrou fã de políticas de direita no final da década, é possível imaginar que o skate, subversivo e anarquista, não esteja tão bem assim.

Apesar da gente ter tido muita mudança legal, tem coisa que ainda não muda e não vai mudar se a gente não aceitar que o skate não é tudo. Ele é só parte de um sistema em que a gente tem que ser ativo e participante para que mudanças ocorram em um ambiente mais macro do que micro. Achar que está ruim só pra si e deixar por isso mesmo é o que faz as coisas estarem ruins de verdade.

Talvez a gente consiga mudar e talvez o skate brasileiro seja uma potência local de novo. A gente ganhou o mundo, só esqueceu de arrumar a casa.

No fim, o que não mudou é o que ainda é mais legal nisso tudo: sair pra andar de skate.

Vamos juntos para mais dez anos? Nos vemos nas ruas!

 

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