Dá pra ser skatista e não comer carne?

Populares e crescentes no mundo todo, as dietas veganas e vegetarianas fazem parte das vidas de muitas pessoas. O não-comer carne se faz presente em várias culturas e no skate não é diferente. Mas dá para parar de comer carne e ser skatista? O praticante não se sente fraco sem carne? E como é sair pra sessão e comer na rua? Essas e outras questões a gente vai a fundo agora: 

  • Vegetarianismo e Veganismo

Você come carne? Não? Nenhum tipo? Peixe é carne ainda, viu? Também não come? Então, caro leitor, você provavelmente é um vegetariano ou um vegano. Os vegetarianos excluem a carne de suas refeições, porém ainda consomem produtos de origem animal como o leite, ovos, manteiga, dependendo de sua escolha de dieta, que vai de ovolacta a vegetariano restrito. Já os veganos, além de não comerem carne, eles também não consomem produtos de origem animal. Isso vale tanto para as comidas, quanto para produtos que usam couro, por exemplo. O negócio aqui é respeitar os animais!

No Brasil, existe um crescimento ano após ano da população que não come carne. Em números de 2012, 8% da população brasileira se declarou vegetariana e desse ano pra cá, as pesquisas do termo “vegano” no google cresceram mais de mil por cento! Claro que nessa porcentagem de 8% (que equivale a mais ou menos 16 milhões de brasileiros), existem alguns de nós, skatistas.

Mas dá mesmo para ser skatista e vegetariano/vegano no Brasil? Será que, por ser uma atividade que utiliza bastante o corpo, o skatista fica fraco sem carne? Será que a dieta vegetariana ou vegana influencia no ato de andar de skate?  Falamos com alguns skatistas vegetarianos ou veganos para saber quais as suas dietas, dicas e se eles sentem alguma diferença em comer ou não comer carne no ato de andar de skate.

  • Skatistas vegetarianos ou veganos

 Enquanto a maioria dos skatistas ainda come carne, existem exemplos de grandes nomes do nosso mundo que não consomem. Alex Olson e Aaron Herrington, por exemplo, são dois que aderiram ao veganismo recentemente. E tem mais: Ed Templeton, Jamie Thomas e Arto Saari são exemplos de lendas que levam o veganismo pras suas vidas. No time dos vegetarianos, Andrew Reynolds, Matt Field e Brian Anderson são algumas das lendas que tiraram a carne de suas vidas, mas ainda consomem produtos de origem animal.

Muitos skatistas brasileiros também levam o não consumo de carne para o seu lifestyle. Lá em Florianópolis, o Marcelo Garcia e o Victor Sussekind aderiram ao vegetarianismo há alguns anos. Em São Paulo, Daniel Marques também faz sua dieta sem o consumo de carne há vários anos. No Rio de Janeiro, Sergio Santoro adere ao veganismo. Adelmo Jr e Roger Mancha são lendas do skate brasileiro e são vegetarianos, levando o lifestyle de suas vidas pra todos os lugares.

  • Produtos veganos no mercado de skate

 Historicamente, os produtos sem origem animal no mercado de skate (principalmente nos EUA) sempre estiveram presente. Lá em 1989 surgiu um gráfico icônico da luta pró vida dos animais que era o clássico Barnyard de Mike Vallelly para a World Industries. A frase “por favor não coma meus amigos” estava presente no top graphic e esse shape era a revelação vegetariana do Mike V para o mercado de skate. Em suas palavras para o site de Chistian Koeder “até hoje existem pessoas do skate que falam que foram introduzidas à ideias vegetarianas através desse gráfico”.

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Mike V e seu Barnyard reeditado pela StreetPlant. (Fonte foto: Vegan SkateBlog)

Algum tempo depois nos EUA surgia a ZeroTwo, que era uma marca de tênis vegetariana. Nos pés foi onde vimos ao longo do tempo o maior número de inovações pró-vida dos bichos. A I-Path também foi bem famosa pelos seus produtos sem origem animal e até hoje existem tênis vegetarianos ou veganos, como o Vans AV Rapidweld LITE, que em todas as suas cores é um tênis vegano e/ou o Jameson HT da Etnies que é o modelo Vegan de Ryan Lay para a marca.

Em meados de 2009, Bob Burnquist lançava a Burnquist Organics, que era uma linha de alimentação orgânica plantada e cultivada em sua casa nos Estados Unidos. Apesar do Bob não ser vegetariano, ele ajudou à comunidade do skate enxergar a pauta da alimentação e da preservação da natureza com maior clareza. Os projetos de Bob e de outros ativistas nessa mesma época ajudaram ao skate enxergar o verde como uma opção para o futuro.


Em entrevista, Bob diz que ajudou os X Games com sua fundação à usar madeiras de práticas sustentáveis nessas competições: “Nós temos que trazer um exército para o mundo verde”.

  • Uma vida salva pelo vegetarianismo

Como já visto acima, Roger Mancha é um dos skatistas históricos do Brasil que levam consigo o lifestyle sem carne. Mas a relação do Mancha com a alimentação é mais do que uma tendência ou uma fase: como ele mesmo disse na entrevista para o Trocando Manobras (na íntegra aqui), a alimentação ajudou a salvar sua vida.

Diagnosticado com glomeruloesclerose segmentar focal, GESF, uma doença que impede a limpeza das substâncias ruins na urina pelos rins, Roger procurou vários tratamentos e possibilidades alternativas antes de fazer o necessário transplante de rim. Ele conta que a alimentação foi “fundamental para o processo de cura”.

Para ele, a vida vegana ou vegetariana é “não é complicada e é essencial”.

Uma hora a conta vai chegar da sua vida e uma hora vai aparecer algo no seu corpo, ele não aguenta, é cada vez pior. Então é essencial esse lifestyle. O problema é comer industrializado, as pessoas nem estão mais olhando o que estão mastigando.

Para e pensa. Se você está comendo carne, pare e pense o quanto é importante a alimentação na sua vida, o quanto é primordial. A alimentação é um caminho, uma experiência na vida, é entender a relação com o meio ambiente, com os animais, com a natureza, tudo. E mesmo entrando no caminho do vegetarianismo, você ainda vai continuar no aprendizado da vida, você vai começar a entender como você se localiza dentro desse universo. É um caminho, sabe? É um modo de ver a vida diferente dessa única chance que a gente tem agora no momento, pode te abrir fronteiras, que nem eu. Eu tive um problema e conheci o vegetarianismo e pude seguir esse caminho. Mas o que é melhor? A internet, os livros estão aí pra falar e te garanto que essa vida é melhor. Mas você vai continuar aprendendo sempre.

  • A opinião da especialista

Conversamos com o médico Luiz Armond e ele, que é vegetariano, afirma que é importante o acompanhamento médico, mas que é possível sim ser atleta (no nosso caso, skatista) vegano/vegetariano sem problemas. Veja opinião dele:

“Dá pra ser um atleta vegano ou vegetariano com certeza! Desde que você tenha um plano traçado, de preferência, por um profissional desde o começo para você não se atrapalhar e desde que você leve com seriedade. Hoje existem estudos de faculdades de altíssimo nível que mostram que dá pra você ser vegano e skatista e, inclusive, mostram diversas vantagens em relação a isso. Por exemplo, uma dieta vegana é muito mais rica em carboidratos, então para um atleta que gasta muita energia, se ele souber controlar bem o nutriente timing, se torna uma vantagem muito grande. Mas tem a questão da responsabilidade de você não somente ter uma dieta rica em carboidrato, mas saber quando comer aquele carboidrato, qual o tipo certo etc. Saber também que todas as fontes proteicas veganas vão ter carboidratos e saber que se você comer errado, você não vai ter boa performance. O atleta tem que saber controlar macronutrientes e as necessidades diárias não só do que ele come mas daquilo que ele precisa no corpo.”

Ouça também parte da entrevista onde ele explica o que o vegano, principalmente, precisa suplementar em suas dietas:

 

  • Mas onde e o que comer?

O skatista fica muito na rua e tende bastante a comer fora de casa. Claro que existe sempre um pão de queijo na padaria ou dá pra fazer um prato com arroz, feijão e salada nos self services da vida, mas não é só disso que vive quem não come carne. No Brasil, existem mais de 250 restaurantes vegetarianos e/ou veganos, sendo a maioria deles no eixo Rio-São Paulo. Além desses, muitos outros não-especializados já tem em seu cardápio opções de pratos sem carne. Esse é outro fato que também motiva muitas pessoas a virarem vegetarianas ou veganas, já que hoje em dia é fácil achar restaurantes especializados ou opções de soja e derivados nos mercados Brasil afora.

Mas por mais que a rota veggie seja mais forte nas grandes cidades, existe opção sem carne longe das megalópoles no Brasil. Conversamos com skatistas de diferentes regiões para saber onde eles comem em suas cidade:

Iuri Maia, 17 anos de skate, vegetariano há um ano e meio, Porto Velho – Rondônia:

“Hoje em dia eu já não passo muito tempo na rua, 28 anos de idade, as prioridades são outras e tenho andado de skate basicamente uma ou duas vezes por semana. Embora aqui em Porto Velho seja de tudo um pouco mais difícil que nas grandes cidades do país, eu diria que você pode ser vegetariano em qualquer lugar,  porém a cidade aqui não favorece. Mas para mim não é um empecilho, quase nunca como na rua, faço meu próprio rango. Os perrengues daqui são a falta de opção e a pouca demanda nas que existem. Facilidade não existe nenhuma.”

Marcos Arosio, 32 anos de skate, vegetariano há 6 anos, natural de São José do Rio Preto mas atualmente vive em São Paulo:

“Aqui em Sampa tem crescido muito as opções vegetarianas e veganas, dependendo da região é mais fácil, as vezes mais caro também, mas acredito que o benefício valha a pena. O que procuro fazer é me alimentar bem antes de sair pra sessão, levar água e alguma fruta, banana, maçã, coisas assim, fácil de levar e de comer. E como ando mais na parte da noite, mercadinhos, lojinhas, lanchontes e afins já estão fechados. O que ser vegetariano me ajudou e ajuda muito também, manter o peso saudável pros joelhos aguentarem!”

Marlon Oliveira, 27, skatista há mais ou menos 15 anos, diretor/fundador da OYE Magazine e Brand Manager da Faith Co, nascido em Alegrete mas atualmente mora em Porto Alegre:

“Vegan e Vegetarian Trash Food, aqui tem uns bons! Pra vegetariano é mais sossegado, mas aqui tem bastante opção, sim.”

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Em São Paulo, o Prime Dog é opção pra rango vegano na madrugada! 

 

  • Uma skatista brasileira vegana em Nova Iorque

A Manu Kondo tem 32 anos e anda de skate há 15. Natural de Piracicaba, atualmente ela mora em Nova Iorque e, há mais ou menos um ano e meio, adotou a dieta vegana pra sua vida. Ela, que ama cogumelos e acabate, conta que é “100% vegana na dieta e estilo de vida”. Manu completa: “Não uso nada que venha de origem animal, tanto na comida como vestimenta, produtos de limpeza, beleza, etc. Sempre leio os ingredientes e evito qualquer produto que seja de origem animal ou que seja testado em animais.”

Como muitos entrevistados dessa matéria também afirmaram, o veganismo também mudou a vida da Manu não só na parte da alimentação: ” Literalmente, desde que fiz a escolha de seguir uma dieta 100% vegana, mudei trabalho, pessoas ao meu redor, amizades, vestimenta e claro, tenho uma pre disposicao e mto mais energia pra andar de skate, bike etc. Me sinto muito melhor e mais conectada com tudo ao meu redor.”

Conversamos com ela sobre como é ser vegano em Nova Iorque e ela respondeu nesse vídeo:

 

 

 

  • Por onde começar?

Se você ainda come carne ou consome produtos de origem animal mas tem curiosidade de experimentar esse novo estilo de vida, é muito simples: hoje com a internet, dá pra achar muita coisa relacionada ao veggie/vegan lifestyle. Parar de comer carne é uma escolha muito interessante, mas que se feita de qualquer maneira pode te prejudicar, como qualquer outra dieta mal realizada. Então é interessante, além de estudos e pesquisas nos sites e livros do assunto, uma consulta a um(a) nutricionista especializado(a) para trocar uma ideia com quem melhor entende do assunto.

De acordo com os entrevistados, ser vegetariano ou vegano pode ir além de simplesmente não comer carne. Como a Manu diz, “é também uma forma de protesto, de abraço à causa animal contra os maus tratos e o monopólio da indústria da carne”. Não comer carne também reduz os danos ao meio ambiente e evita doenças. Mas claro, faça tudo “sem noiar” como o Marcos Arosio fez questão de frisar. “Cada corpo e indivíduo é diferente um do outro, então o negócio é ser leve, sem cobranças e sim com amor, sabedoria e consciência”.

Como a Manu Kondo afirma, “quer ser vegetariano ou vegano? Apenas faça!”

 

  • Links e sites:

Site da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) https://www.svb.org.br/

Vegan Skate Blog http://veganskateblog.com/

Christian Koeder e vegetarianismo/veganismo no skate americano http://www.christiankoeder.com/2011/12/vegetarianism-in-skateboard-scen.html

Luiz Armond: instagram.com/dr.armond

Fontes:

SVB https://www.svb.org.br/vegetarianismo1/mercado-vegetariano

One Comment

  1. Eu não pretendo virar vegetariano, mas acho que as pessoas se apoiam muito na ideia de que tem que ter carne em toda refeição.
    Eu procuro comer de forma saudável e escolher ingredientes bons independente de serem animais ou vegetais. Mas, falando em questão ideológica, a industria das carne é escrota demais tanto com os bicho quanto com os trabalhadores, e a industria das pranta também fode demais a terra, os trabalhadores e os bichos que dependem dos terreno sendo capitalizado.
    Pra mim o lance é investir na agricultura familiar e lutar contra o capitalismo, um dia os bicho não vão ser envenenados de esteróide vão viver suas vidinha feliz

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